O seu Fadinho infernal.

O calão é a linguagem habitual do fadista. Parece um dialecto, sem o ser rigorosamente. Muito pittoresco, não se limita apenas a alterar phoneticamente as palavras como a giria infantil; além de lhes alterar o som, altera-lhes tambem a forma, e muitas vezes lhes desloca a significação, levando-a para outros objectos, n’um sentido tropologico, fundado na relação de semelhança.

Assim, a garrafa preta da taberna é viuva; os copos são filhos da viuva: uma viuva e dois filhos quer dizer—uma garrafa e dois copos.

Mas se o copo é maior que o da decilitração habitual, chama-se sino grande.

O cigarro é soldado de calça branca; a navalha, sardinha; a faca, sarda; o apito, rouxinol; a quantia que o rufião recebe da amante, queijada; o dinheiro, painço; o café com leite, mulato; a agua com café, meio-caiado; Deus, juiz do Bairro Alto; as pernas, juntas; a barriga, folle das migas; as notas de banco, filhozes; enfiar uma guitarra pela cabeça d’outra pessoa é fazer uma gravata; a bofetada é estampa; a meia-porta dos bordeis do Bairro Alto, avental de madeira, etc.[41]

Nas outras linguas encontra-se um vocabulario correspondente ao calão dos nossos fadistas: os hespanhoes chamam-lhe germania e chamavam-lhe antigamente gerigonza; os francezes jargon e argot; os italianos gergo e lingua furbesca; os inglezes cant, etc.[42]

Calão vem de caló, nome que os ciganos dão a si mesmos.

Portanto significa propriamente «cigano», «lingua de cigano.»

A giria portugueza, isto é, a linguagem especial usada pelas classes vis a fim de que as outras classes sociaes a não entendam, é muito antiga: já no seculo XVI Jorge Ferreira de Vasconcellos se refere aos que fallavam germanía.

No seculo XVII D. Francisco Manuel de Mello empregou alguns termos de giria na Feira dos anexins, que é, como se sabe, uma galante collecção de equivocos e jogos de palavra.