—Entre os dois capitulos unicos d'este romance medéam vinte annos, amigos. Durante este longo periodo{42} envelheceu o protogonista, cujo original tendes presente. Nevaram-se-lhe os cabellos; mas o coração não envelheceu. O coração, posso dizer-vol-o, atravessou a vida sem conhecer o mal, sem o suspeitar siquer. Não extranheis a apologia. No epitaphio tudo se escreve, e eu estou escrevendo o meu. Perante qualquer outro auditorio, seria risivel o espectaculo d'um velho namorado; para vós não é, que o sei eu, porque vós sabeis apreciar estas delicadas aberrações da sensibilidade, vós, grandes phisiologistas, vós, philosophos distinctos, vós, mais que tudo isto, almas nobilissimas. É o theatro, amigos, um porto de salvação aberto aos naufragos do mundo. Os que não teem sociedade especial, compram um logar n'essa sociedade de todos, e conseguem passar uma noite. Os que da sociedade sahiram feridos, e a evitam, fogem-lhe, estando entre ella, no theatro. As boccas inuteis da sociedade, deixae-me assim dizer, os que já se não divertem nem divertem a sociedade, os velhos especialmente, são uma especie de corpo extranho que o grande mar social arrojou para fóra de si. A praia protectora, o refugio, o porto unico de todos estes naufragos é—o theatro. Pois bem. Eu comprehendi, nos ultimos annos, esta verdade, e comecei a frequentar o theatro. Tinha eu lido, por muitas vezes, em outro tempo, que o theatro era interiormente um fóco de sensações extranhas, de fascinações especiaes, uma nova sociedade, um novo mundo, até. Mas eu ia ao theatro unicamente para gastar uma noite. Nenhum interesse me inspiravam as intrigas de bastidores. Quando o panno descia, acabava para mim o theatro; quando subia, recomeçava.{43} Ha tres annos, meus amigos, que morreu entre nós uma cantora notavel. Todos a conhecestes, todos a applaudistes, porventura. Ah! ninguem podia vêl-a e ouvil-a, e ficar indifferente, silencioso, esquecido d'ella! Vi-a, no dia immediato ao da sua chegada, no Chiado. Ella ia de trem. Viu o emprezario a fallar commigo. Mandou parar a carruagem, o emprezario aproximou-se, e apresentou-me. Bella, se o era, bella! Bem o sabeis, se o era! Lisboa inteira conserva immorredoira recordação d'essa mulher extraordinaria pela voz e pela formosura. Fui á primeira recita. Que ovação aquella, amigos, que estrepitosa e espontanea ovação! Tenho ainda nos ouvidos os fervidos rumores d'essa festa, que se agitava em derredor de mim, e em que eu tomava parte só intimamente, porque a minha austera posição de medico, e sobretudo a gravidade da minha velhice, me obrigavam á fria compostura d'um authomato. Ah! as convenções sociaes, meus amigos, o que se perde de vida pelas convenções sociaes! É-se novo, ha fronteiras que importa respeitar e não ultrapassar. É-se velho, novas balisas,—as ultimas—a delimitarem o numero dos nossos passos e a largura dos nossos gestos. Tirae á vida os periodos da infancia e da velhice, e vede o que fica, amigos! Eu não faltava ao theatro. Eu esperava com impaciencia pela noite. Eu comprei em toda a parte quantas photographias appareceram d'essa mulher adoravel. Cerquei-me d'ellas, comparava-as, discuti-as perante o tribunal da minha critica artistica, e concluia sempre por achal-as inferiores ao original, que eu adorava. Algumas vezes sahi mais cedo de casa para ir vêl-a entrar{44} no theatro. Postava-me a distancia, a grande distancia, disfarçadamente. Via parar o trem, descer o seu vulto, entrar rapidamente pela porta do palco. Ah! como eu vivia de tudo isso, como eu estimava que lhe bisassem os mais doces, os mais delicados trechos de musica, para vêl-a mais tempo, para a poder ter defronte de mim mais alguns momentos! Se se contra-annunciava um espectaculo, que contrariedade a minha! Que ditosas que seriam as mulheres se podessem amar, se conhecessem, ao menos, todos os homens que as amam em segredo! E entre as mulheres todas, especialmente as de theatro, se soubessem como ás vezes são amadas puramente, loucamente, ellas, que estão habituadas a ouvir phrases que já não podem enganar quem as diz nem quem as ouve! Eu ouvia fallar de ceias que lhe offereciam, ceias sumptuosas e alegres, e das quaes alguns de vós foram porventura convivas. Nunca assisti a nenhuma. Um velho n'um banquete onde a mocidade erguia as taças! E depois, novo que fosse, por Deus, que não iria tambem! Eu quebraria contra a meza a minha taça, quando outro homem ousasse levantar um brinde á mulher que eu amava. Uma noite, amigos, entrava eu no theatro e pude, atravez da agglomeração dos grupos, lêr o contra-annuncio affixado no atrio. Por grave doença d'ella não havia espectaculo! Por grave doença d'ella! Mas eu era medico, e tinha direito a vêl-a! Por grave doença d'ella! Mas eu era medico, e, permitti-me a vaidade que o amor despertára impetuosamente, diziam que eu era um dos primeiros medicos, e todavia não se lembraram de mim! Tive, porém, um momento de{45} reflexão: havia vinte annos que eu tinha sahido d'aquelle mesmo theatro para acudir a uma grave enfermidade que se manifestára subitamente. Quem sabe se aconteceria o mesmo, se procurariam, ao acaso, um medico, e levariam o primeiro que o acaso lhes deparou? E depois, para que? para que quereria eu haver sido chamado? para, como ha vinte annos, luctar braço a braço com a morte, soffrer, soffrer, soffrer e, salvando-a, restituil-a á vida, á mocidade, á gloria, a todos os que diziam amal-a? Recolhi-me a casa, resignado pela reflexão, mas profundamente triste. Não quiz perguntar por ella. O meu orgulho de medico conhecido não me permittia perguntar por uma doente que eu não tratava. Passei a noite inquieto; os curtos somnos que seguiram ao primeiro foram intervallados pela sua doce e dolente recordação. Eu via-a, ora na scena, festejada, applaudida, disputada por todos: ora morta, amortalhada para a sepultura, pallida, silenciosa, esquecida de todos. E, o que mais era, eu quizera que a realidade fosse esta—ó egoismo humano!—para que ninguem gozasse uma felicidade que eu não tinha, e para que o meu amor, o unico verdadeiro e duradoiro, fosse chorar sobre o seu tumulo as primeiras e talvez as ultimas lagrimas da saudade. De manhã, pedi com impaciencia os jornaes. Procurei noticias. Todos diziam que ella estava perigosamente doente. Sahi para a rua, sem saber para que e porque. Encontrei logo quem me fallasse n'ella. Foi para isso de certo que eu sahi. Mais pessoas, muitas pessoas, as ultimas das quaes me disseram que ella havia fallecido. Ah! que ella havia fallecido! Então já não era de mais{46} ninguem! Então realisára-se o meu sonho! Ó natureza humana, que infame que tu és!
E o dr. Filippe Sullivan por algum tempo escondeu o rosto entre as mãos.
—Não vae sem legenda á sepultura um cadaver illustre. Parece que a morte não tem direito de roubar os que por algum titulo se nobilitaram. Em torno do cadaver d'ella inventaram-se boatos sinistros. O rapido e fatal desfecho da molestia parece que deu margem á suspeita de morte violenta, e o certo é que, como perfeitamente sabeis, a authoridade competente requereu autopsia. Eu fui convidado para tomar parte n'esse acto. Ah! que felicidade essa! Ia vêl-a, ao pé de mim, como nunca vi, como poucos talvez a viram! Acceitei, acceitei ardentemente. Fui cedo para o cemiterio. Queria vêl-a sósinho, beijal-a em segredo, dizer-lhe o que nunca lhe tinha dito. Os meus olhos iam, finalmente, saciar-se de a vêr. Quando eu cheguei ao cemiterio, não estava ainda ninguem. Ninguem! Estava ella;—ella era tudo para mim! Levantei respeitosamente o lençol, deixando a descoberto a fronte e o collo. Assim era que eu a via no theatro: assim me pareceu bella como então! Mais bella talvez! Mais branca e mais serena. Levemente affastei os cabellos castanhos que se annellavam sobre a testa. Que formosa! que formosa! Curvei-me para ella, beijei-a na face e disse-lhe como se me podesse ouvir:
—Ah! finalmente! posso dizer-te que te amo! Agora, que estás aqui sósinha, agora, que todos fogem receiosos do cheiro da tua podridão, agora te posso eu dizer que te adorei como nunca foste adorada! Já{47} não ha vozes de festa e de applauso em torno de ti, mas ha a minha voz, querida, a minha voz e as minhas lagrimas... Pois não vês tu que estou chorando? E quem mais te chorará no mundo a esta hora? Ninguem! Se ainda tens na patria algum parente que te pranteie, esse mesmo te chorará depois de mim!... Ah! como tu vivias illudida! Pergunta onde estão os que diziam amar-te. Bocejam a esta hora no longo somno da manhã. Eu toda a noite passei inquieto por ti. Elles desvelaram-n'a no prazer. E todavia nunca me deste um sorriso, nunca soubeste que te adorava! Como arfava nas noites de festa este teu seio formoso! Como se te coloriam as faces! Que turbilhões de vida não revolviam estas tranças! E agora tudo vae para a terra, mas, antes que a terra o receba, tudo eu quero adorar! Não, não irás para a terra, querida, como os pobres e como os extrangeiros. Eu tenho ahi um leito de marmore, que é grande de mais para mim. Já lá repoisam dois amigos. Para lá irás tambem. Lá esperarás por mim, que não posso tardar. Pretextarei piedade por uma extrangeira distincta para te fazer esta concessão. Não tive familia em vida; tel-a-hei em morto, ao menos. Ah! pobre coração tão calado! O que tu pulsaste, o que tu doidejaste talvez! Não se é nova e formosa impunemente. Agora tudo é silencio e frialdade em ti; aqueçam-te siquer as minhas lagrimas, que são puras e ardentes.» E eu via cahir uma a uma as minhas lagrimas sobre o coração d'ella,—aquelle coração que eu compraria a peso de oiro, se ella o vendesse. N'esse momento senti passos, e soavam{48} já tão perto, que mal pude disfarçar-me. Era o seu assistente, que está alli...
E o dr. Filippe Sullivan indicou um dos mais novos medicos, que estavam em torno da sua meza.
—Ha de lembrar-se, dr., de que extranhou, ao entrar, a minha commoção. «Choro esta pobre mulher, que ninguem mais chora» respondi eu. «Porque ella ninguem choraria tambem» replicou o dr. «Como?» «Porque ella, caminhando de festa em festa, de prazer em prazer, não teria tempo de fazer reparo nos que cahiam deante de si. E tamanha era a embriaguez deliciosa da sua vida, que a levou a apressar a morte, a escaldar o sangue que lhe refervia no coração em turbilhões aneurysmaticos. Ninguem a matou; suicidou-se ella. Era preciso, porém, transigir com o mundo: requeri autopsia.» «Cale-se, dr., por Deus lhe peço!» respondi eu. E não pude continuar... Entravam os magistrados que tinham de ser presentes. O dr. offereceu-me o escalpello; eu dei o primeiro golpe. Nunca senti a mão tão leve como n'esse dia. Dir-se-ia que eu não queria magoal-a... O ultimo brinde, amigos, o ultimo brinde! Pelo amor! pela esperança! pela felicidade! É dia; vem rompendo a manhã. Abramos as janellas. Deixemos brilhar o ultimo raio de sol sobre a minha ultima ceia.
Meia hora depois, dizia-se n'um grupo de homens notaveis, que esperavam nas salas baixas os seus trens:
—Foi a ultima ceia do dr... Fausto!