Um sorriso ligeiro perpassou nos labios dos convivas.
—Achei sempre tão violento um inglez a fallar portuguez, como um portuguez a fallar inglez. Mas... uma portuguesa! Essa gentil menina entrou na sociedade lisbonense, d'onde saira creança, com a triplice celebridade da sua bellesa, da sua educação e do seu dote. D'entre vós conhecem-n'a os que em Lisboa nasceram:{32} a esses a minha velhice recommenda discrição. Para os que não são lisbonenses desejo eu que ella fique sendo a mulher ideal d'um romance verdadeiro. Alvoroçaram-se os mais elegantes moços açulados nas pesquizas de noiva rica. Dois de entre elles pareciam nivelados nas probabilidades de triumpho: um era barão; outro visconde. Andava travado um grande duello moral entre os dois. Não se faltava d'outra coisa: discutia-se a elegancia do barão e a fina educação do visconde. No theatro, em estando ella, havia trez pontos, ligados por linhas invisiveis, em que todos os olhares se fixavam: ella, o barão e o visconde. Este era o triangulo da curiosidade publica. Eu costumava rir-me dos novos episodios que dia a dia ia offerecendo o grande pleito amoroso, e algumas vezes cheguei a acreditar ingenuamente na possibilidade d'uma segunda guerra de Troya... A minha idade era já tocante na petrificação das illusões: eu tinha quarenta e oito annos. Esta deve ser a fria idade da critica e, por conseguinte, da reflexão. Era justamente isso o que eu fazia: Punha sobre a minha pequena mesa anatomica aquella titanica lucta de Melenau e Páris, e com o meu escalpello de medico ia minando até encontrar o cofresinho onde se guardava o dote disputado. Em sentindo tilintar o dinheiro, desatava a rir.
Riu tambem das facetas imagens do doutor Filippe Sullivan a erudita assembleia.
—A esse tempo, como ia dizendo, começava a entrar commigo o tedio da gloria. Eu principiava a sentir que viver era mais alguma cousa que triumphar. Faltava-me, meus amigos, o soffrer. Ah! faltava-me{33} o soffrer, essa incomparavel doçura do veneno! Solidificavam finalmente na friura da pedra as prismaticas stalactites da minha gruta remançosa. E começava a rir dos que comprehendiam a vida sem a necessidade de soffrer. Ora o barão e o visconde, disputando-se um dote monstruoso, denunciavam tacitamente a sua repugnancia pela necessidade de soffrer. Eu fazia d'ambos elles um conceito insignificante. Lembro-me perfeitamente de que uma noite se conversava ácerca d'esse famoso casamento. Discutia-se sobre a preferencia de noivo. Foi pedida a minha opinião. Esquivei-me. Insistiram. Respondi que triumpharia o visconde. «Porque, dr.?» perguntaram. «Por ser visconde» respondi. «Ora! Isso não é rasão!» replicaram. «Peço perdão, redargui, os viscondes teem geralmente mais razão que os barões.» Começava a aborrecer-me tanto como a gloria a já longa questão do grande casamento. O que eu desejava era que elle se effeituasse d'um modo ou d'outro para que me deixasse em paz. Mas... uma noite, uma noite, estava eu em S. Carlos, e vejo entrar na platea, visivelmente perturbado, o visconde. Phantasiei de repente uma scena de pugilato como barão. Olhei, a procural-o. O visconde, porém, aproxima-se de mim, e pede-me com precipitação que o acompanhe a vêr um doente. Saimos ambos. No corredor, o visconde passa o braço direito pelo meu dorso, encosta-me ao seu peito, de tal modo que eu sentia bater vertiginosamente o seu coração, e diz-me com dolorida vivacidade: «Doutor, um grande favor: salve a minha noiva.» «A sua noiva!» repeti admirado, enfiando a sobre-casaca. «A{34} minha noiva» respondeu elle, e accrescentou o nome. Era ella. E, já no trem, emquanto o visconde mascava avidamente o charuto e olhava através do vidro enevoado do vapor da noite, ia eu dizendo commigo mesmo: «Afinal de contas, os viscondes teem geralmente mais razão que os barões.» Chegamos. Os criados andavam azafamados pelos corredores. Sentia-se no ar aquelle sinistro alvoroço que acompanha as grandes enfermidades e succede ao passamento de uma pessoa da familia. O visconde ia adeante de mim, rapida mas cautelosamente. A meio de uma das salas saiu-nos ao encontro a attribulada mãe d'essa gentil menina. O pae passeava á porta do quarto da filha representando a força, como se fizesse sentinella para obstar a que entrasse a morte. Quando me viu, abriu para mim os braços: temia-se da morte, e esperava que eu fosse a saude, a vida. Aos lados do leito velavam, nos vãos do pudico cortinado, trez meninas parentas da casa. A doente, justamente no momento em que eu entrei, recostava-se impacientemente nas almofadas, tinha as faces rubras do carmim da febre, sobretudo na preeminencia dos mallares. Era extrema a sua agitação proveniente da pontada sobre o lado esquerdo, das nauseas, dos calafrios, da tosse, da tosse que era violentissima, e que fôra n'ella, estando á mesa, a subita manifestação da molestia. Estava perfeitamente diagnosticada á primeira vista a pneumonia aguda complicada de pleuresia. A auscultação não deixou duvidas. O visconde, ao pé de mim, allumiava com uma pequena palmatoria de prata. O pae e a mãe estavam meio escondidos por detraz do cortinado, mirando-me{35} com olhares dolorosamente interrogadores. As trez meninas haviam sahido do quarto. Sahi para receitar. O visconde e o pae da doente prenderam-me cada um por seu braço e interrogaram-me com um gesto. Respondi a verdade,—que estava gravemente doente, mas que eu não desesperava de salval-a. O pae voltou-me as costas aturdido d'aquellas verdadeiras e lentas dores que os paes costumam soffrer pelos filhos; o visconde poisou o castiçal e com ambas as mãos apertou a minha. «Doutor, tornou a dizer-me, salve-m'a, salve-m'a!» Havia effusão no que dizia. Eu, n'aquelle momento, esqueci-me de que aquella mulher era rica, e o visconde seu noivo. Queria salval-a á custa de sacrificios e de esforços. Voltou o pae á sala, bateu-me no hombro e disse: «Doutor, não nos fuja, não nos desampare. Eu vou mandar-lhe preparar um quarto.» E, sem esperar a minha resposta, sahiu rapidamente. A minha resposta, a ter tido tempo para responder, era a annuencia. Não se é medico para outra coisa. O logar do medico é ao pé do doente; eu estava no meu logar. Essa noite foi terrivel de anciedade para todos. Eu sentei-me á cabeceira do leito, preparando e ministrando por propria mão os remedios. A insomnia prolongou-se pela noite dentro, e, não obstante a rapidez das applicações, sobreveio de madrugada o delirio. Muitas vezes, emquanto o delirio durou, ouvi á doente o meu nome. «Doutor! doutor!» Invocava o meu auxilio e a minha amizade, mas não atinava com o mais que desejava dizer. O nome do visconde nunca o pronunciou. Do outro lado do leito a mãe, sempre{36} que a ouvia pronunciar o meu nome, punha as mãos sobre as quaes lhe caiam as lagrimas, voltada para mim, como o faria deante de um altar, n'uma supplica silenciosa. Já era manhã quando a doente, apoz alguns momentos de grande agitação, teve que obedecer á acção dos medicamentos, e descaiu sobre o meu braço no momento em que a amparava. Dormitou, poisada a cabeça sobre o meu braço, alguns momentos. Quizeram substituir o meu braço pelas almofadas. Não consenti. Então, de repente, comecei a entrar n'um estado excepcional, em que me parecia que não estava ali como medico, conservando todavia a consciencia de o ser. Não sei, devo dizer-vol-o, que pura e respeitosa voluptuosidade me dava o corpo gentil d'aquella mulher poisado sobre o meu braço! Se estivessemos sós, havel-a-ia beijado nas tranças; mas, se ella não estivera doente, quizera retirar o meu braço! Extranhas loucuras! Extranhos pensamentos que nunca eu tivera! E, ao mesmo tempo, não sei que mysteriosa attracção para aquelle leito, para aquella doente, para tudo o que nos cercava ali! Eu começava a achar em mim mesmo profundezas desconhecidas. O visconde entrava de vez em quando na camara e todavia eu não odiava o visconde! A pobre mãe, com os olhos docemente postos na filha, começava a inspirar-me um profundo sentimento de sympathia. «Que é isto?» perguntava eu a mim mesmo. «Que estou sentindo eu, que enlouqueci de repente?» E não sei que doce oppressão soffria o meu braço n'esses breves momentos,—tão breves foram!—que ella dormiu. Eu estava bem! tão bem, sem saber por{37} que, n'aquella incommoda posição, sem todavia pensar uma vez siquer que o visconde desejaria estar como eu! Não reputava aquillo felicidade. Mas estava bem! tão bem! Durante esse tempo, que teve para mim a duração d'um momento, eu era um novo homem que despertava em mim, mas como que aturdido d'um sonho. Não sei bem explicar o meu estado. Depois, ella teve um frouxo de tosse, e abriu os olhos. Abriu os olhos, e olhou para mim. Não sei se me viu. Sei que eu achei no seu desluzido e meigo olhar uma doçura inexcedivel. «Ah! heide salvar-te!» disse de mim para commigo, cheio de confiança e enthusiasmo, reptando-me a mim proprio. «Muito bem! continuei eu monologando, acceito a luva. Aqui está esta vida preciosa, que eu principio, não sei porque, a estremecer. D'acolá, d'aquelle lado, está a doença, talvez a morte, o anniquilamento de tudo isto tão delicado e gracioso. Não avançarás, morte, não espalharás sobre estas faces o teu punhado de pó. Para traz, miseravel, que vens atacar uma mulher que nem siquer pensava em ti!» Recolhi-me por algumas horas ao meu quarto por haverem instado commigo, não que eu quizesse ir, porque já me custava desamparar aquelle leito cujo alvo cortinado fechava para mim um paraiso. Não me pude deitar; não poderia adormecer. Comecei a passear e a fumar. De repente faço reparo nos quadros que pendiam das paredes: o retrato d'ella! Surpreza providencial! O retrato d'ella! Comecei a sentir-me menos impaciente desde esse precioso achado. Arrastei a cadeira para defronte do retrato. Sentei-me, fumava, pensava... Que pensava eu? Não sei. De meia{38} em meia hora ia ver a doente, e voltava a sentar-me defronte do retrato. Demorava-me pouco ao pé do leito; tinha receio de que notassem em mim excesso de zelo medico. Espantosa cobardia a minha! Estava mais tempo em frente do retrato do que ao pé do leito. Quando chamaram para o almoço, fui ver a doente e, extraordinaria incongruencia! eu, que principiava a ter receio de estar ali, ao pé d'ella, senti-me vagamente triste por ter que sahir para ir ver outros doentes. Não me dispensaram de jantar. Oh! com que intimo prazer não acceitei eu, apezar de apparente reluctancia, esse convite que para mim seria de uma impertinencia atroz feito n'esse mesmo dia por outras pessoas. Dentro do meu trem, fumando continuamente, fumando sempre, achei-me só, triste, inquieto. Descobri n'esse dia um dos multiplos segredos da vida, para descerrar os quaes ha sempre uma chave na mão das circumstancias extraordinarias. O segredo que eu descobri, meus amigos, essa terrivel surpreza que me assaltou n'esse para mim notabilissimo periodo da minha existencia, foi a solidão do trem. Acreditem, é uma subtil observação psycologica, que passa despercebida quando se é feliz. Oh! mas quando se soffre, e se vê e ouve atravez dos stores d'uma carruagem o mundo, o rumor, o bulicio, a vida, e nós vamos sosinhos, ali dentro, como quem passa para o cemiterio, então, meus amigos, a solidão do trem é horrivel, medonha, pavorosa. Vi os meus doentes preoccupadamente. Com extraordinaria impaciencia esperei a hora do jantar, a hora da familia, como eu ia dizendo commigo, eu, que nunca tive familia, e que{39} portanto nunca soube o que era jantar. Recolhi meia hora antes do que devia, para gastal-a ao pé da minha doente. O seu estado, sem ameaçar perigo imminente, continuava a ser grave. Mas a esperança de a salvar, direi mesmo a certeza, cada vez profundava mais no meu coração. A doente por duas ou trez vezes me relanceou o seu olhar mavioso. Oh! que paraizo aquelle, o dos seus olhos! Que preciosa recompensa aquella para as preoccupações d'um medico! Dir-vos-hei, amigos, sinceramente, lealmente, se aquella mulher houvesse succumbido á molestia, eu haver-me-hia suicidado para extinguir em mim uma sciencia que desde esse momento reputaria inteiramente falsa e inutil. Foi ainda de graves cuidados essa noite, que eu desvelei quasi toda sentado á cabeceira do seu leito. Depois da meia noite, a doente conseguiu dormir somnos curtos mas tranquillos. A sua pobre mãe, extenuada pela fadiga physica e moral, dormitava alguns momentos; na saleta, o visconde, que nas ultimas vinte e quatro horas havia alterado o seu horario aristocratico, cerrava por vezes os olhos, e cabeceava. O dono da casa estava descançando para revezar a esposa no espinhoso cargo de enfermeiro. Só eu velava ali, eu só, com os meus extraordinarios pensamentos, amando, posso e devo dizel-o, amando em silencio, pela primeira vez na minha vida, aquella mulher, cujas fórmas a pallida luz da lamparina e a alva roupa do leito tornavam vaporosas, e que eu amava desinteressadamente, puramente, como se ella não fosse rica, como se não fosse formosa e gentil. Ah! que era de certo essa a primeira vez que ella era assim{40} amada no mundo! que foi essa de certo a ultima vez que ella foi assim amada!... Sou quasi chegado, meus amigos, ao para mim mais pungente lance d'esta narrativa. Não terei forças para historial-o com o vagar que requeria...
E o dr. Filippe Sullivan, cerrando os olhos por alguns momentos, em meio de geral e profundissimo silencio, concluiu rapidamente:
—Pois bem. Abreviemos. Á medida que a doença cedia, recrescia o meu amor. Chegou finalmente a hora que eu desejaria retardar indifinidamente, mas que a minha consciencia de medico me obrigava a determinar: a hora de a entregar formosa e salva aos braços de seu marido. Ah! que é terrivel! Aos braços de seu marido! O que se passou em mim, o que eu soffri, nem o sei, nem vol-o posso dizer... Marcou-se dia para o casamento. Ella veio pessoalmente a minha casa, com a mãe e com o noivo, convidar-me com invencivel insistencia. Oh! e foi ella mesma que me impoz esse enorme sacrificio! Prometti ir. Fui. Falleceram-me forças para entrar á capella. Fiquei ao limiar. Ella, quando entrava pelo braço do pae, teve para mim um sorriso de gratidão, e disse: «Devo-lhe a vida, doutor.» Amigos, lancemos uma onda de champagne sobre esta primeira pagina do meu breve romance. Pelo amor, amigos, pelo amor! Hoje, a noiva de ha vinte annos é uma virtuosa senhora que, se me avista na rua, diz ainda ao marido ou aos filhos: «O doutor! é o doutor!» Entre a viscondessa de hoje e o seu medico de ha vinte annos, ergue-te tu, ó generosa{41} mocidade, coroada de rosas e de loiros, que me ouviste, que me comprehendeste, que me perdoaste decerto!
—Pelo dr. Sullivan, a mocidade eterna! pronunciou tremula de commoção uma voz.
—Pelo dr. Sullivan!—repetiu rumorosamente, de pé, copos erguidos, a sabia assembléa.
Houve então um intervallo de extraordinaria animação e vivacidade, de commoção profunda. Um romance de amores, de maguas intimas e grandes, vinha completar a biographia d'aquelle homem notavel. Elle pertencia já a muitas das galerias em que a posteridade costuma admirar o passado: á medicina, á politica, á historia e á sciencia; desde essa noite, elle pertencia tambem ao romance, a mais agradavel de todas as apotheoses. Exclamações, dialogos, abraços, brindes, tudo isso succedeu como n'um conto phantastico a essa extranha revelação do dr. Filippe Sullivan. E á surpreza do que se ouvira, misturava-se já a impaciencia pelo mais que elle promettera contar. Como se todos os convivas obedecessem ao mesmo impulso, a pouco e pouco retomaram os seus logares na mesa da ceia, de modo que a figura do dr. Sullivan de novo se destacou, naturalmente, na primitiva attitude, coroada dos reverberos phosphorecentes dos candelabros.
Elle recomeçou, accendendo negligentemente um charuto, e lançando sobre as primeiras palavras essas perfumadas e tenues nuvens de fumo que para logo denunciam um tabaco delicioso.