N'este momento, o dr. Filippe Sullivan, extremamente pallido, de pé, com a mão direita firmada na meza e a esquerda apoiada sobre a taça do champagne, disse ardentemente, depois de por alguns momentos haver mergulhado o olhar ennublado de lagrimas no delicioso conjuncto da mesa:
—N'essa phrase está talvez o segredo da minha vida. Ah! que não póde o peito d'um homem fechar-se sobre si mesmo com os seus pensamentos e com as suas dores durante o longo e trabalhoso curso de setenta annos! Nunca sob este tecto se trocaram confidencias porque jámais aqui houve familia. Faltava a doce intimidade do jantar e do serão, das festas e das tristezas domesticas. Eu entrava só, estava só, sahia só,—vivia só. Mas não posso, meus amigos, não posso por mais tempo guardar no seio o que ha tão longo tempo aqui trago escondido. É a primeira e a ultima confidencia. Viestes assistir, amigos, aos alegres funeraes d'um velho collega. Pois bem. Elle quer corresponder á vossa dedicação, e, no momento de adormecer na paz do tumulo, quer de vós todos fazer a sua familia, contar-vos a sua vida, revelar-vos os seus segredos. É um morto que falla, amigos...
Fez-se um silencio profundo. O dr. Filippe Sullivan, conservando a mesma posição, recomeçou:{29}
—Eu amei, meus amigos, eu amei duas vezes na minha vida, e eu amei duas pessoas que justamente me não amaram...
Passou em todas as boccas um murmurio de surpreza e talvez de incredulidade.
O dr. Filippe Sullivan espalmou no ar a mão direita, e o silencio restabeleceu-se profundissimo:
—Gastam facilmente a vida as illusões. E uma das mais queridas illusões da mocidade é seguramente a Gloria. Que deslumbramentos a refulgirem no prisma da nossa phantasia, quando o nosso nome principia a passar de bocca em bocca e já uma vez por outra ouvimos por detraz de nós pronunciar na rua o nosso appellido! Ah! as aspirações do homem brilham para dentro delle com a phantastica coloração das stalactites n'uma gruta illuminada pelo sol,—sol de esperança é elle—e, como as stalactites se formam gotta a gotta, as nossas aspirações vão-se conglobando sonho a sonho. Até que finalmente chega o momento em que para todo o sempre petrificam... Esse momento chegou. Mas eu queria dizer-vos que foi a Gloria a grande, a querida, a profunda illusão da minha mocidade. Sonhar applausos, festas, saudações... ah! meus amigos, eu sinto agora mesmo a garra traiçoeira da Gloria a estender-se furtivamente para o meu peito arrefecido pelo gear de longos invernos. Parece-se n'isto a Gloria com a saudade: quando lembra, commove; quanto mais doe, mais se arreiga! Ah! deixa-me em paz, esconde a tua garra tigrina, ó monstro que te chamas Gloria, se não queres que o meu desprezo esmague o teu coração tão{30} abundante de sangue que chega para o mundo todo! Foram sonhos os primeiros annos da vida,—sempre sonhos, deixai-me dizer-vol-o assim, phantasticamente realisados. A Gloria é como os tyrannos que abrem os thesoiros da sua real liberalidade para comprarem uma denuncia, mas que, feita a denuncia, mandam ao sacrificio a victima que ludibriaram. Ah! que em a gente dizendo á Gloria: «Sou teu», chega o momento em que os tyrannos deixam de ser generosos para se volverem feras que preparam festins de sangue. Tudo me concedia a Gloria, tudo me concedeu até esse momento fatal. Eu escravisara-lhe o meu pensamento, eu vivia d'ella e para ella, e atravessava a sociedade com a fria exterioridade d'um homem cujas relações amorosas se involvem no mais profundo mysterio. Todas as mulheres se me affiguravam lastimaveis quando eu descia ao meu santuario intimo e queimava o incenso da adoração perante o altar do meu idolo. Frequentava n'esse tempo os bailes, unicamente para reivindicar o meu direito, por mim conquistado, de ir aos bailes. Estava nas salas indifferente. Se o meu mundo não era aquelle! No meu mundo não havia mulheres que vendiam sorrisos e que pintavam ao espelho a belleza das faces e dos supercilios. Não! No meu mundo tudo era puro, sincero, leal e digno: povoavam-n'o as aspirações d'um homem, que nascera obscuro, que fizera um nome, e que, de todos conhecido, caminhava para um ponto ideial e luminoso: a Gloria! Ah! que isto é verdadeiramente puro, sincero, leal e digno...{31}
Aqui sorrira desdenhosamente o dr. Filippe Sullivan e, depois de brevissima pausa, proseguiu:
—És pó, homem, és pó!... E tu, vivendo nos homens e com elles, o que has-de ser tambem. Gloria? Deixa-me em paz. Estão por ahi esses moços: crava-lhes no peito a tua garra tigrina. A mim deixa-me em paz. Não venhas perturbar os meus funeraes. Foge, foge... Na sociedade diziam-me ás vezes d'uma ou d'outra mulher: É bonita! Eu quasi sempre respondia distraidamente: É bonita! Eu era como aquelles viajantes, que deixam na patria a noiva, e que atravessam os paizes sem repararem nas mulheres extrangeiras. Assim entrava eu nas salas de baile. Algumas vezes, muitas vezes me disseram de uma mulher, que por esse tempo chegara de Inglaterra onde estivera a educar: «Veja, dr., como é bonita!» «Ali! é bonita!» Para mim valia tanto como as outras. Fallava inglez. Circumstancia aggravante. O Garrett gostava do anglicismo amoroso. Muitas vezes me encareceu a doce realidade do verbo: To flirt.
Eu já nesse tempo tinha como principio que, se o inglez se inventou de proposito para alguem, foi justamente para os inglezes.