No andar nobre havia a um lado tres vastas salas que entre si communicavam por largas portas arqueadas e envidraçadas. Estavam todas abertas, illuminadas, deslumbrantes de esplendor e elegancia. Do outro lado correspondiam os aposentos do dr. Filippe Sullivan, quartos deliciosos, d'uma luz tibia e doce, em grande parte devida á côr das colgaduras e da mobilia. Estavam corridos de par em par os reposteiros. Uns compartimentos interiores, destinados a toilette e casa de banho davam communicação particular para a sala da mesa, cuja entrada principal era pela terceira sala do lado opposto. Ah! a sala da mesa! As graças da phantasia de mãos dadas com as pompas da opulencia! As mais finas e custosas loiças indianas! pratas artisticamente lavradas para os festins d'um{26} principe! crystaes multicores e resplendentes! candelabros constellados de lumes sem conto! quadros onde os mimos da natureza sobresaiam pela delicadeza do colorido! um labyrintho de taças, de plateaux, de corbeilles, de ornatos gelatinosos, de fructos variegados, de pequenos aquarios, de magnificas jarras de Sevres, no meio d'uma vasta sala cortada por dois arcos de uma grande elegancia de desenho!

Quando os convidados sairam das outras salas, onde deliciosamente os detiveram o bilhar, o Whist, a bibliotheca, a conversação scientifica ou humoristica, e entraram á sala da mesa, quasi todos os grupos pararam de subito ao limiar da porta deslumbrados da surpreza de tão grandioso espectaculo.

O dr. Filippe Sullivan fazia notabilissimamente as honras da casa. Elle destacava-se elegantemente n'aquelle vasto quadro por tal modo animado e confuso. Sobre a casaca, que lhe vestia ainda com a elegancia d'um moço, a roseta encarnada da legião de honra recordava tacitamente uma das paginas mais gloriosas da sua vida scientifica.

Essa doce recordação não podia faltar na ultima ceia d'um sabio,—a ceia dos setenta annos, o ultimo resplendor do sol sobre as neves da velhice, o derradeiro punhado de flores arremessado alegremente para a silenciosa aridez do inverno.

A ultima ceia, o ultimo brinde, a ultima taça de champagne! Depois... talvez a morte.

Prolongou-se pela noite dentro a ceia. Não ha imaginar ahi mais vivida, mais fervida, mais scintillante conversação! mais doida, mais caprichosa! borboleta{27} que parecia arrancar de todas as boccas uma palavra de ouro para as deixar cahir em chuva scintillante, do alto da mesa, sobre as flores, os crystaes e as luzes! Houve um momento de indiscriptivel animação e de enthusiasmo sublime.

O mais novo dos membros da faculdade propoz um brinde á gloria que cingia de luz a fronte encanecida dos seus velhos mestres. O dr. Filippe Sullivan ergueu-se verdadeiramente commovido e respondeu levantando um brinde á esperança, ao amor e ao futuro, saudando a mocidade que nas cadeiras do professorado ia a pouco e pouco substituindo brilhantemente os ultimos soldados da velha guarda medica.

—Ah! que sejam felizes, disse elle, que menos os namore a gloria do que o amor! que os loiros da sciencia não affoguem na sua folhagem viridente as delicadas rosas da felicidade terrena! Ah! que é preciso que o medico saiba ganhar no dia de hoje as forças herculeas que tem de empenhar amanhã na sua continuada lucta, braço a braço, com a morte e com o lucto. É preciso que o medico seja homem uma vez ao menos, porque, se elle pensou mais nos outros do que em si, morrerá só, na solidão do seu lar, sem familia, sem mão piedosa que lhe cerre os olhos, sem labios infantis que lhe beijem a mão inanimada, depois de ter vivido tristemente a dar a vida aos outros ou de lhes haver procurado suavisar a morte pelo menos. Por isso eu brindo pelo amor, pela felicidade, e pela esperança!

Houve então quem se levantasse e dissesse:

—Eu brindo, eu saudo, eu quizera divinisar os{28} gigantes do dever, os que serenamente poisam a sua cabeça no marmore da sepultura depois de haverem dado ao mundo o maior, o mais sublime, o mais estupendo exemplo de abnegação. Eu brindo os que se não fizeram amar porque todo o coração lhes era pouco para amarem os outros...