Tinha vagado na eschola medica um logar de professor d'uma das mais importantes cadeiras. Ninguem concorreu a não ser o dr. Filippe Sullivan, porque ninguem podia e queria esgrimir com elle para ficar indubitavel e fatalmente vencido. Se o corpo cathedratico podesse ir a casa buscal-o e trazel-o levantado nos braços para a cadeira do professorado, o corpo cathedratico havel-o-hia feito. Mas a lei exigia concurso, e não havia remedio senão satisfazer á lei. Os jornaes annunciaram com grande antecipação o dia do concurso, e não tardaram a referir que um medico francez, então residente entre nós, pedira licença ao dr. Filippe Sullivan para traduzir a sua dissertação a fim de ser conhecida e devidamente apreciada nos primeiros estabelecimentos medicos de França. Houve grande empenho em ser admittido na sala dos concursos. Foi preciso reservar logar para as senhoras, porque foram muitas as que assistiram desde o primeiro dia. O dr. Filippe Sullivan era então um rapaz em todo o vigor da sua gentil mocidade. Poderia haver quem lhe pozesse a pecha de extremamente pallido, mas não faltava quem achasse na sua face a morbida doçura que caracterisa vulgarmente os homens de grande coração{12} e maior intelligencia. Diante do corpo cathedratico grave e attento, em face do publico numeroso e recolhido, elle tinha a naturalidade da expressão, a fluencia do dizer, as imagens pittorescas e claras, os arrebatamentos scientificos, e por vezes poeticos, o gesto vigoroso e proprio, e ao mesmo passo a modestia sincera e captivante que em toda a parte davam maior relevo ás suas profundas qualidades medicas. Momentos houve em que elle, respondendo brilhantemente a habeis e repetidas objecções, fôra acolhido por um longo e voluntario murmurio da multidão, agitada por as grandes contracções nervosas que nos invadem o cerebro diante dos mais assombrosos espectaculos de prazer ou dor.
Quando elle se levantou, agitaram-se no ar centenas de braços, de professores, de estudantes, de amigos, de conhecidos e desconhecidos, como se todos podessem em verdade abraçar ao mesmo tempo, e no mesmo logar, um só homem. N'essa mesma noite, posto faltassem ainda as ultimas provas, teve sob as janellas uma ruidosa serenata de estudantes, que enthusiasticamente vozeou as mais calorosas e delirantes acclamações, diremos mesmo os mais doidos gritos que o enthusiasmo póde arrancar de peitos de vinte annos. Ó boa, ó santa, ó louca mocidade! como são grandes os teus hymnos, as tuas apotheoses e os teus delirios! Ó meigo leão, como és imponente e formidavel, quando lambes magestosamente as plantas do teu deus ou do teu heroe! Ó onda alegre e sonora, que vais espraiar-te sob a janella do novo Fausto dos teus poemas eternos e mandar-lhe as fervidas notas da tua rumorosa{13} serenata, tu és a grande voz da historia, tu és o olympico hymno da gloria, que se antecipa no coração da mocidade!
A primeira vez que regeu a cadeira, os estudantes de todos os cursos offereceram-lhe um jantar, em que elle, ao levantar-se para agradecer n'um só brinde as saudações que de toda a parte lhe foram dirigidas, rompeu, pronunciada a primeira palavra, numa convulsão de choro e riso, de que brotou, como entretecida de saudades e esperanças, a mais arrojada e torrentosa eloquencia que de improviso póde jorrar de labios humanos.
Não vinham longe as eleições geraes. O nome sympathico do dr. Filippe Sullivan começou a ser apresentado em alguns comicios e recommendado por algumas classes extremamente influentes. Pessoas havia porém que lamentavam esse criminoso roubo da politica á sciencia, e que tinham sincera magua de privar a sociedade d'um medico por tal modo distincto para dar ao parlamento mais um orador. Todavia a onda eleitoral foi crescendo com a rapidez que caracterisa o ardor com que se servem as causas voluntarias, e o dr. Filippe Sullivan appareceu no parlamento festejado e respeitado pelo governo e pelas opposições. Toda a gente tinha os olhos n'elle, e toda a gente esperava com mal contida impaciencia o seu primeiro discurso. A meio da sessão parlamentar, o governo pareceu em crise, e as opposições colligadas assestavam as baterias da sua eloquencia apaixonada para varejarem o ultimo reducto do governo. N'esse dia o dr. Filippe Sullivan pedira a palavra, mas a ordem{14} da inscripção collocava-o em ultimo logar. Foi uma carga terrivel da opposição contra o governo, e, vendo os ministros pallidos, abatidos, vexados nas suas cadeiras, todo o publico das galerias, incluido grande numero de representantes extrangeiros que enchiam a tribuna dos diplomatas, olhava para o dr. Filippe Sullivan como se fôra o unico homem capaz de oppôr o seu peito á medonha torrente das iras opposicionistas. Quando finalmente lhe chegára a palavra, e parecia não estar longe o momento em que as pastas voassem das mãos dos ministros aos pés do rei, o dr. Filippe Sullivan rompeu na mais eloquente e na mais arrojada apostrophe de indignação contra as opposições colligadas, e n'um discurso titanico, em que defendeu, medida a medida, os actos do governo, exhortando-o a levantar a fronte diante da voz da ambição e das garras da inveja, elle supplantou esses terriveis antagonistas sedentos de poder, que combatem o que se fez porque elles o não fizeram. Nunca jamais orador algum sustentára, um contra cem, tão ardente e desproporcionada campanha parlamentar. Elle fôra n'esse dia verdadeiramente um gigante, um assombro de coragem e eloquencia, porque a sua palavra, interposta a dois campos inimigos, volveu-se um como baluarte invencivel, a montanha insuperavel que faz o desespero eterno dos que vendo perto a gloria ficaram finalmente vencidos.
Sempre me pareceu que a Gloria devia de ser caprichosa, porque a fizeram mulher. Mulher e formosa!
Caprichosa por certo! Ella adora os que a não amam, e aborrece os que a amam. Ella procurava, seguia,{15} provocava o dr. Fillippe Sullivan, que a não requestava, que lhe dava um sorriso e que passava adiante; ella colhia-o nos braços e enleiava-o nas mil ondulações das suas tranças fluctuantes, no parlamento, no professorado, á cabeceira do doente, sempre!
«Ah! talvez ella dissesse, tu és meu e queres fugir-me! Mais um laço, mais outro, mais cem: solta-te agora dos meus braços, despedaça, se pódes, os meus grilhões: liberta-te, escravo da minha vontade soberana!»
E os seus grilhões, doces como os braços das mães quando cingem os filhos, tinham, e hão de ter eternamente, alguma coisa de terrivel como os espinhos da juba revolta com que a leoa cobre a victima que empolgou.
«Tu, continuaria ella, tu não pódes ser grande na tua cadeira de professor, e pequeno na tua cadeira de deputado. A toda a parte chega o meu influxo, o meu poder e a minha soberania. Eu sou aquelles resplendores que tu vês ondular em columnas vaporosas a dentro d'uma janella por onde entra o ar e a luz. Por toda a parte sei passar, pela janella meia fechada ou pela porta meia aberta, e, para não encontrar nunca obstaculos, faço-me pó resplendente, e entro. Aqui está o que eu sou: poeira de luz, amigo, unicamente poeira de luz. Valho tão pouco como o pó, e valho tanto como a luz! Em toda a parte estarei comtigo, doutor. Até logo, até já, até sempre!»
E ella dizia, e ficava a espreital-o por detraz dos reposteiros, para o seguir quando elle sahisse.