—O que é isso da coroa? perguntou Araujo Rodarte.

—Ah! Pois v. exc.ᵃˢ não sabem? O Goes tinha mandado vir de Lisboa uma coroa de louros para se coroar a si proprio!

—Sim?! perguntou Salomé.

—Sim, minha senhora, explicou o alferes. Ora o melhor da passagem é que foi o Marcolino, marcador do café Esperança, quem emprestou ao Goes o dinheiro para pagar a coroa, e parece que está resolvido a rifal-a para vêr se salva o emprestimo.

—Isso tem muita graça! apostrophou Araujo Rodarte. Eu recebi lá em casa a importancia do meu camarote. Se soubesse que se rifava a coroa, tinha reservado essa quantia para me habilitar a ser coroado, perorou o velho rindo.

—O administrador do concelho, de combinação com o presidente do conselho director do Asylo, resolveu, visto que o espectaculo não chegou a ultimar-se, mandar restituir aos espectadores a importancia das respectivas entradas. Mas o Marcolino fez justiça por suas proprias mãos: vendo a coroa dependurada no camarim do Goes, deitou-lhe a mão, para não perder tudo, e vae rifal-a.

—Uma acção bonita, alvitrou o tenente Rosalgar, era comprar um bilhete da rifa em nome de Bocage, que tem mais direito á coroa do que o Goes.

—Não! eu cá, se me sahir o premio, disse o alferes, faço presente da coroa á tia Felismina do hotel Escoveiro: ao menos, durante um semestre, não nos ha-de faltar louro na comida.

—Pois o melhor de tudo, observou Araujo Rodarte, era mandar de presente a coroa ao rapaz, porque lhe póde servir para outra vez.

—N’essa não cáe o Marcolino!