—Pois foi isso talvez, mas eu nunca mais a vi.

—E, se não sou indiscreto, o que lhe teria dito n’essa occasião o sr. Vianna, se ella abrisse a janella?

—Eu? Eu ter-lhe-ia dito que se não amofinasse com tolices, que era seu amigo, que gostava apenas de me divertir, e que não queria que ella se ralasse com isso.

—Ah! n’esse caso, o sr. Vianna, sem aliás tomar um compromisso com essa senhora, dava-lhe uma prova de amisade e de estima, que mostra que ella não deixou ainda de ser, no seu espirito, a dedicada companheira de infancia...

—Pois decerto. Estimaria que ella se não tornasse infeliz por culpa do seu proprio genio.

—Não diga genio, sr. Vianna. Chame-lhe antes coração. Ella ama, e soffre as torturas de um amor, que não julga correspondido. Triste cegueira a dos moços, que não se lembram um momento de que nada torna tão agradavel a existencia como um coração que nos seja sinceramente dedicado! Desculpe-me que lhe falle assim, em nome dos meus cabellos brancos, sr. Vianna. O coração de D. Adelaide Sequeira já está experimentado: tem sido firme e leal, apesar de não ser correspondido. Que maior e melhor felicidade poderia encontrar o sr. Vianna!

—Eu reconheço tudo isso, sr. Rodarte, mas devo confessar que me vexa a ideia de que sou pobre e Adelaide é rica. Esse casamento seria mal visto por muitas pessoas, especialmente pelo pae de Adelaide...

—O pae! atalhou Araujo Rodarte. O que um pae deseja sempre é a felicidade dos seus filhos. O pae de D. Adelaide Sequeira vê a filha doente, ameaçada de morte, e deseja certamente salval-a. Quanto á opinião publica, o que poderá ella dizer contra um casamento que o amor santifica? E se disser, deixal-a dizer, porque a opinião publica, quando não tem rasão, é combatida pelas consciencias honestas, e essas são os unicos juizes auctorisados. N’uma palavra, não repugna ao sr. Vianna sahir d’esta casa noivo de D. Adelaide Sequeira?

—Mas subsistem ainda as minhas duvidas quanto á familia d’ella...