XX

No fim de setembro, o morgado de Reguengos e o proprietario das Alcaçovas estiveram jogando uma noite o loto em casa das Rodartes, como era costume.

Nada se passou de extraordinario, que podesse manifestar a importante resolução que os dois alemtejanos haviam tomado.

Repetiram-se as phrases do estylo: o velho Rodarte lamentou mais uma vez, ao sentar-se á mesa, que o proprietario das Alcaçovas não soubesse jogar o voltarete, seu jogo predilecto; fallou-se da Sequeira, que, alegre e feliz, estava tratando do enxoval para casar com o Vianninha; combinou-se a hora do banho, no dia seguinte, em conformidade com a maré. E das dez e meia para as onze os dois alemtejanos retiraram-se, foram deitar-se tranquillamente.

No dia seguinte estiveram na praia, tomaram banho como de costume, esperaram que as Rodartes chegassem para fallar-lhes, e ás nove horas estavam sentados á mesa do almoço comendo com excellente apetite.

Depois do meio dia sahiram ambos, foram procurar Araujo Rodarte, o que aliás não estava em costume.

Foi o morgado de Reguengos quem primeiro usou da palavra, fallando em nome dos dois.

—V. Ex.ª, disse elle ao dono da casa, ha-de certamente estranhar uma visita a hora que não está nos nossos habitos. Mas o motivo que aqui nos traz é de tal modo solemne, que exigia da nossa parte uma visita especial para o expôrmos. E como nós, os alemtejanos, somos homens que não estamos costumados a grandes discursos, entraremos já no assumpto, se V. Ex.ª assim o permittir.

Araujo Rodarte comprehendeu logo do que se ia tratar, e o seu coração bateu apressadamente n’uma commoção que teve tanto ou quanto de dolorosa.