Que sol! que ceu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batêra tanto amor no peito,
Se eu morresse ámanhã.
Mas essa dôr da vida, que devora
A ancia de gloria, o dolorido afan...
A dôr no peito emmudecêra ao menos,
Se eu morresse ámanhã...
Na verdade o estudante de Alcacer difficilmente poderia ter escolhido outra poesia, que melhor traduzisse as grandes luctas intimas da sua alma. É certo que nos pormenores da composição não havia inteira identidade de circumstancias entre o recitador e o poeta. O estudante nunca tivera irmã nenhuma, e porisso estava bem longe de que a piedade fraterna tomasse sobre si o encargo de lhe fechar os olhos. E ainda que caisse ferido no campo da honra, de pistola em punho, sua mãe não morreria de saudade, pela simples rasão de já ter morrido, alguns annos antes, com as febres de Alcacer. Quanto ás corôas, que elle perderia morrendo, a dessimilhança era profunda. O pae, com quanto fosse um bom proprietario de marinhas, estava cançado com as prodigalidades do filho,—isto pelo que toca ás corôas de... dez tostões; quanto ás de loiro, colhidas nas lides de Minerva, as raposas encarregavam-se de lh’as devorar annualmente. Mas, em tudo o mais, essa triste prophecia de Alvares de Azevedo parecia quadrar á situação do estudante.
Soledad deu mediana importancia aos versos e ao recitador... N’essa noite parecia deliciada em conhecer como um homem forte do norte póde estontear de amor sob a influencia de uma mulher do sul. Quando o estudante sahiu da sala, jurando aos seus deuses matar o sueco, depois de ter matado o jornalista, o marcador chegou-se ao pé d’elle, e lembrou-lhe aquella continha de dezoito vintens, visto que ha viver e morrer, e elle haver dito que o duello havia de ser de morte...