O conselheiro havia carregado a mão no tempêro: a pimenta fazia arder a bocca. Mas era bom, muito apetitoso, puxativo, como dizia Julio de Lemos, bebendo grandes tragos de uma boa pinga de Azeitão, por uma caneca branca, comprada, como toda a outra loiça, na Innocencia da Praia.

A conversação animára-se, phrases cruzavam-se, havia allusões, referencias que esvoaçavam por sobre a cabeça dos convivas. Julio de Lemos dizia coisas para a direita e para a esquerda, a Soledad e a Hilda, quasi sem dar tempo a que ellas podessem responder a mais ninguem.

O sueco embezerrou despeitado, não fallava, e o redactor da Trombeta, muito habituado a lunchs, comia como uma frieira, mettendo a colherada em todos os assumptos. Era um perfeito exemplar de jornalista.

Soledad, sempre incomprehensivel, mudou da tactica. Desfazia-se em amabilidades com o estudante, ella mesma lhe enchia de vinho a caneca de loiça, e lhe suggeria a inspiração dos brindes.

Hilda, menos petulante que a hespanhola, conservava-se modesta n’aquella atmosphera capitosa de vinho e pimenta. As irmãs, como ella, respondiam concertadamente ás perguntas e ás amabilidades que lhes dirigiam.

O sueco, muito rubro, soprava como uma fóca, e Soledad parecia divertir-se com isso, gostar de o vêr subitamente despenhado do pedestal a que o tinha subido.

D. Estanislada entrava pela caldeirada com o desembaraço de quem está habituado a indigestões. E D. Enrique, para não envergonhar a mulher, acompanhava-a no bom apetite com que repetia salmonete sobre salmonete.

O conselheiro, como um artista que se sente galardoado, comia pouco, contentava-se de vêr comer os outros. Reconhecia-se lisongeado no apetite alheio, especialmente no de D. Estanislada, que era francamente glorioso para elle.

O Rodarte, muito discreto, encarecia o talento culinario do conselheiro, dizia-lhe que nunca na sua vida tinha comido uma caldeirada que lhe soubesse melhor.