Não se conheciam ainda outras consequencias d’aquella brincadeira fatal. Parecia que D. Enrique, o Rodarte e o conselheiro a ignoravam. Mas não aconteceu inteiramente assim.

Dos tres, não tardou muito a mostrar-se desgostoso o conselheiro Antunes.

Fallando com o estudante, extranhou, com palavras severas, que se rifasse uma senhora casada. Textual. Accrescentou que, se D. Enrique o soubesse, poderia haver uma tragedia de sangue. Tambem textual. Pela sua parte, apenas sentia que fosse elle proprio que tivesse proporcionado a occasião para um tão grave desacerto, inventando a caldeirada. Que o caso ja havia dado de si, porque o respeitavel snr. sueco, um cavalheiro digno de toda a estima, se havia auzentado, desgostoso.

Julio de Lemos contestou que tudo aquillo não tinha passado de uma brincadeira inoffensiva, que em nada podia affectar a honra das cinco damas, todas ellas respeitabilissimas. Que o vocabulo—rifa—era violento, porque a rifa presuppunha immediata adjudicação do objecto rifado, e não se dava esse caso.

Mas o conselheiro, procurando sustentar a sua opinião, descobriu um pouco as baterias. Deixou perceber que a expressão do pasquim—junta geral—o tinha maguado pessoalmente. E como o estudante se lembrasse de dizer que a junta geral do pasquim não era a do districto de Santarem, mas a collectividade dos pretendentes amorosos das trez Rodartes e da hespanhola (velhacamente, o estudante ia pondo de parte D. Estanislada para lisongear o seu interlocutor) o conselheiro, muito formalisado, disse que não era pretendente á mão de nenhuma dama, que apenas se considerava um solteirão aposentado. Que se tivesse querido casar, o poderia ter feito ha muitos annos com formosas e abastadas senhoras de Santarem, de Almeirim e de Alpiarça. Que não só receiava que D. Enrique o viesse a saber, e se desgostasse, mas tambem que o venerando Rodarte, um modelo de cortezia e prudencia, se chocasse com essa brincadeira de mau gosto, que envolvia o nome das suas tres netas.

No dia seguinte, um sabbado, D. Enrique foi visto no Sapal, passeiando e lendo, peripateticamente, uma gazeta de Sevilha. Parecia preoccupado. O conselheiro foi fallar-lhe. D. Enrique disse-lhe que ia passar alguns dias a Lisboa. Teria vontade o conselheiro de perguntar-lhe se ia só ou acompanhado. Mas não se atreveu a tanto. E logo conjecturou que era um pretexto de D. Enrique para retirar-se de vez, sem alarde. Aqui está, pensou o conselheiro com os seus excellentissimos botões, o que aquelles diabos arranjaram com a brincadeira da rifa!

Deixando D. Enrique, o conselheiro foi dizendo, principalmente aos implicados na patuscada de Troia, que principiavam a fazer-se sentir as consequencias d’aquelle grave desacerto; que D. Enrique ia á Lisboa ou, segundo elle suspeitava, para Lisboa, d’onde talvez não voltasse, desgostoso.

A noticia correu rapidamente. Alguns logistas, que tinham rido com o pasquim, começaram a queixar-se de que por uma imprudencia alheia estivessem arriscados a perder freguezes importantes.

O conselheiro tirou-se dos seus cuidados, e foi á estação vêr partir o comboyo para Lisboa. D. Henrique e Soledad embarcaram. D. Estanislada ficava, portanto, só, em Setubal, durante alguns dias. Oh felicidade! exclamou mentalmente o conselheiro.