Á luz da lamparina, muito curvados sobre uma cómmoda, lêram-na ambos.
Custou-lhes a entrar com o texto, uma verdadeira torre de Babel, onde as linguas se confundiam e baralhavam: o sueco, o portuguez e o hespanhol andavam ali em cabriolas de amor de um coração polyglótta.
Soletrando, entendendo aqui, não entendendo acolá, chegaram á conclusão de que o scandinavo alludia a um desgosto que tivera no pic-nic de Troia, que o obrigára a retirar-se para o Barreiro, tendo aliás feito constar que ia para Cintra, afim de desorientar a perseguição dos trocistas. Mais uma vez declarava a Soledad o seu ardente amor e, para definir uma situação embaraçosa, pedia que lhe apparecesse á janella ás onze horas da noite.
Esta carta providencial, que não chegou ao seu destino, esclareceu a situação, amansou as furias do lobo amoroso. Ao contrario do que acontece no apólogo, e n’isto é que a realidade se apartou da fabula, o lobo ficou vencido, e o cordeiro, salvo sempre o sexo, ficou vencedor.
Na rua, emquanto o conselheiro e D. Estanislada decifravam a carta, o sueco, o qual por sua vez ficára ciumento vendo um vulto, mas não o reconhecendo, voltára ao sitio d’onde havia fugido e, ardendo em zelos, esperava que a janella de Soledad se abrisse.
Estava elle ali parado, olhando para todos os lados, palpitante de anciedade e receoso da troça, quando sentiu abrir-se mansamente a porta de um rez-de-chaussée.
Teve medo de alguma insidia, não porque fosse um fraco, mas porque era um estrangeiro esmagado pela chacota indigena. Ouviu um psiu, tres vezes repetido, um psiu que não podia ser senão para elle, porque na rua não havia mais ninguem, e esteve quasi para fugir outra vez.
Era uma mulher que o chamava, parecia, pelo menos, que era uma mulher, mas quem lhe podia affirmar que não fosse o Julio de Lemos ou o Aurelio Goes ou algum ladino official de caçadores disfarçado em mulher? Hesitava, e teria talvez fugido, se não se convencesse de que era effectivamente uma voz de mulher que, depois de o ter chamado, lhe estava dizendo cautelosamente:
—Venha aqui, que lhe posso dar noticias interessantes.
O sueco aproximou-se, e ficou encantado de se lhe deparar na janella uma rapariga de cerca de vinte annos, algo morena, mas sympathica. Os olhos eram vivos, porque brilhavam na treva. E, ao vêr diante de si uma realidade agradavel, o sueco encostou-se á janella e sentiu um brando cheiro a mangericão, que o seio da rapariga exhalava, e que a elle lhe soube tão bem como um copo de Kirsch-Vasser.