De vespera haviam chegado os pagens e monteiros com numerosas matilhas de lebreos, sabujos e outros cães, e boas aves de presa.
De manhã cedo já os nobres caçadores andavam no seu rude lidar, e não poucas vezes lhes era servido o almoço á sombra d'uma alameda cuja simplicidade bucolica notavelmente contrastava com as finas toalhas hollandezas, os gomis de ouro lavrado, os picheis e taças de prata,—com a preciosa baixella da casa do infante.
Foi n'uma d'essas manhãs, e sob essa mesma alameda frondosa, que o infante D. Duarte recebeu uma carta cuja direcção, era a seguinte:—Para sua excellencia o senhor infante D. Duarte.[[1]]{32}
Para logo conheceu o infante a letra: era de Agostinho Pimenta.
Houve curiosidade de saber o que diria a carta, por inesperada. O noviço do conventinho da serra de Cintra sollicitava da infanta viuva e de seu filho authorisação para professar. Jubilou com a noticia a côrte do infante: havia conseguido uma victoria. Só D. Branca de Noronha tregeitou quasi imperceptivelmente de desdem.
Momentos depois, ao tempo em que Agostinho Pimenta dolorosamente suppunha a louçã aiasinha requebrada nas galanterias de D. Antonio de Mello, esquivava-se ella ao encontro d'este galanteador fidalgo, impellindo gentilmente o seu palafrem ao longo da alameda.
Ha uma desenvoltura mais casta do que o recato melindroso.
Ha, mas tambem ha uma força maior do que a Verdade.
É o Amor.
Pintaram-n'o cego os antigos. Cego, porque tudo é despenhar-se em insondaveis profundesas de virtude ou de crime, sem lançar mão á humilde esteva que florece no cairel do abysmo, para que o sustenha na queda; cego, porque tudo é querer arremetter com as difficuldades que lhe tomam o passo e ir por deante na sua vertiginosa carreira quasi sempre vencedor e poucas vezes vencido; cego, porque se não lembra de que a vida é pequena para elle e porque aspira á eternidade quando se inflamma em peito de Jacob e de sete em sete annos renova o longo{33} sonho da sua ventura almejada com o pensamento fito em Rachel.