Branca attentava no ainda moço Agostinho, e já não ousava disparar-lhe os chistes proprios do seu genio. Se acertava encontral-o, fugia-o receiosa de visinhar a tristesa do habito. Agostinho da Cruz tirava d'esta esquivança indicios de culpabilidade, e recolhia taciturno ao seu convento, onde aligeirava as horas da clausura compondo versos que dias depois lançava ao fogo.

Mais de quarenta annos deslisaram entre este repartir-se com Deus e com a secreta inspiração que não deixava apagar na sua alma o fogo vestal da poesia. N'este meio tempo, indo ao convento de Cintra D. Diogo Lopes de Lima, perguntára a Frei Agostinho da Cruz se o habito lhe vedava o poetar. O monge respondera sorrindo que os versos menos valiosos eram os que se davam ao papel, e d'esses quasi todos os inutilisava. Outros havia que recitava áquellas penhas ou confiava áquellas arvores. D. Diogo de Lima, relanceando os olhos ao tronco a cuja sombra praticavam, viu repetidas vezes entalhada no cortex a letra B. Preoccuparam-n'o pelo caminho as palavras do franciscano, e dias depois relatava o succedido no paço do duque de Aveiro, em Azeitão.

Facil lhes foi correr com a memoria as breves paginas da brevissima mocidade de Agostinho Pimenta, e o associarem a gentil aiasinha da infanta{37} D. Izabel á inicial entalhada nas arvores de Cintra. Uma só pessoa podia aclarar a verdade. No convento de Jesus estava recolhida desde a morte da infanta D. Izabel uma senhora que podia dar noticia da gentil aiasinha dos dezesete annos. Esta senhora orçava pelos cincoenta e cinco. Era D. Branca de Noronha.

De Azeitão a Setubal breve é a jornada, e brevissima o foi para tão destro cavalleiro como o duque.

Consultada por D. Alvaro de Lencastre a reclusa do convento de Jesus, pôde ella conciliar as suas recordações no sentido de presumir-se causa involuntaria da conversão de Agostinho Pimenta.

Desde esse momento D. Branca deixou de ser um segredo da alma do monge, que, tendo a rogos do provincial Frei Antonio da Assumpção acceitado a guardiania do convento de S. José de Ribamar, mais que nunca se afervorou no empenho de retirar-se á serra da Arrabida, desde que percebeu as allusões do duque de Aveiro e de D. Diogo de Lima aos poucos annos da sua mocidade vividos na casa do infante.

Obtida a licença, não sem grandes difficuldades, passou-se Agostinho da Cruz á serra da Arrabida, onde não havia commodo para viver solitario.

Implorou a amisade do duque para ter eremiterio, mas, recreado nas diversões campestres do seu paço de Azeitão, esqueceu-se D. Alvaro de Lencastre de lh'o mandar edificar. Frei Agostinho da Cruz não reclamou. Fez uma cubata de ramos silvestres, e por sua propria mão tentou levantar casa{38} mais de geito para resistir ás violencias da serra. Feriu-se nas mãos, e desistiu do intento. N'esta conjunctura visitaram-n'o os duques de Aveiro e de Torres Novas, o primeiro dos quaes era padroeiro da Arrabida. Então tornou a lembrar a ermida. Tratou-se de escolher sitio. Vacillaram na escolha, e o duque de Torres Novas, floreando a enxada, demarcou, por cortar hesitações, a área da ermida.

O paço d'Azeitão! O que hoje são paredes ruinosas e negras era n'aquelle tempo um palacio que, segundo o phrasear de Frei Luiz de Souza, podia competir com os melhores de Hespanha. Casas, jardins, pomares, bosques e pinhaes magnificos! E como tudo isso foi docemente conquistado pelos descendentes do mestre de S. Thiago aos frades de S. Domingos, seus visinhos! Pediram terreno para fazer uma casa de campo. Os frades, orgulhosos da nobre visinhança, deram o terreno, e o mais que lhes foram pedindo, até que appareceu o grandioso palacio, de que restam as paredes!

Mas fiquem em paz as ruinas.