Respirava dilatada na profunda solidão da serra da Arrabida a alma de Frei Agostinho da Cruz depois que o duque d'Aveiro lhe fizera mercê da ermida, que ainda hoje se conserva em memoria do seu primeiro morador. Pequena era a habitação do ermita, em verdade, mas a alma do poeta tinha maior espaço na amplidão da montanha coroada pelo firmamento e defrontada pelo oceano. Frei Agostinho amava profundamente a noite, porque era só então que a sua pallida figura de solitario podia errar{39} livremente, nas asperesas da serra, acobertada pelas sombrias azas do mysterio. Algumas vezes, de dia, o molestavam até á mortificação a visita de pessoas amigas e a reservada espionagem dos religiosos do mosteiro que, por quererem parecer mais zelosos, não supportavam que Frei Agostinho vivesse fóra da clausura. Mas a noite adormecia a vigilancia nos olhos dos espiões, e afugentava da asperesa da serra as pessoas que lá o procuravam. Então, a sua alma podia voejar desopprimida de receios, e subir em extasis para Deus ou roçar por ventura as suas azas, purificadas no chrysol da fé, pelas austeras paredes do mosteiro de Jesus, onde vivia a que fôra a gentil aiasinha de D. Izabel.
Fossem quaes fossem as tribulações de Frei Agostinho durante os amigos silencios da lua, como diz a expressão virgiliana, jámais deixou de fazer oração antes de sair o sol, e de nas primeiras horas da manhã ir á ermida da Senhora da Memoria ouvir a missa de Frei Diogo dos Innocentes, outro solitario que depois lhe ajudava.
Era, pois, durante a expressiva mudez da noite que por deante dos olhos do solitario da Arrabida perpassavam os phantasmas do passado, as visões do presente, e talvez as prophecias do futuro. Desenhava-se-lhe com sombrio relevo o ephemero tempo da sua mocidade agora povoado de cadaveres. Em 1576 havia fallecido em Villa Viçosa a infanta D. Izabel. O infante D. Duarte, que acompanhára el-rei D. Sebastião na sua primeira jornada a Africa, voltára enfermo ao reino e fallecera no mesmo anno que sua{40} mãe, dois mezes depois. A infanta D. Maria, casada com o principe Farneze, dera em longes terras a alma ao Creador, um anno depois de sua mãe e de seu irmão. O nome da duqueza de Bragança, D. Catharina, entremostrava-se-lhe envolvido n'esse labyrintho de graves acontecimentos politicos que succederam depois da morte do cardeal. Seu irmão Diogo Bernardes, que estivera captivo em Africa, por haver acompanhado D. Sebastião a Alcacerquibir, na qualidade de chronista, e que lográra repatriar-se, recebendo no reino uma tença de Filippe II, fallecera n'esse mesmo anno em que Frei Agostinho conseguira recolher-se á Arrabida. Pedro d'Andrade Caminha tinha succumbido dezeseis annos antes. A colera do Senhor havia passado sobre o ceu da patria como um gladio de fogo, e a fome, a peste e a guerra haviam devastado a terra onde o cadaver de Camões, amortalhado na bandeira gloriosa das quinas, dormia o somno da immortalidade.
Esse fôra o grande poeta que morrera com a patria.
Todos os mais, aquelles de quem Frei Agostinho da Cruz se lembrava, taes como seu irmão Diogo Bernardes e Pedro Caminha, haviam adorado todas as realezas e todos os homens; atravessaram a côrte portugueza trovando e trovando entráram na côrte hespanhola.
Ah! elle não! Elle, o solitario da Arrabida, fizera do amor terreno a escada de Jacob por onde subira ao amor divino.
A gentil aiasinha da infanta D. Izabel envelhecera{41} reclusa no convento de Setubal. Era como que um livro que elle fechára ao vestir o habito, mas que o seu coração encadernára no pergaminho da saudade, como que para durar sempre.
O unico poema que lhe era dado lêr, quando d'essas encerradas memorias desviava a vista, era o vasto firmamento arqueado, n'uma grande serenidade azul, zebrada de lacteas ondulações, sobre o dorso austero da montanha.
Umas vezes a lua, suspensa como enorme lampada circular, outras vezes as palpitações luminosas do relampago lhe allumiavam estas horas nocturnas de funda meditação.
Certo dia, pouco depois da visita do duque d'Aveiro ao convento de Jezus, procurou-o na serra o Padre Frei Fernando de Santa Maria, por negocio preciso, diz piedosamente o biographo Mesquita. Estava alheiado em extasi Frei Agostinho da Cruz, quando o Padre Fernando chegou. Foi mister dar-lhe tempo de redescender á realidade terrena e, quando a alma do asceta voltou a encarnar-se no homem, o Padre Fernando de Santa Maria entregou a Frei Agostinho da Cruz uma carta que em Setubal lhe haviam confiado para o solitario da Arrabida.