—Quem se lembra ainda de mim no mundo? perguntou serenamente Frei Agostinho.
O Padre Fernando encolheu os hombros, inclinou-se e sahiu.
Frei Agostinho lançou-se contra o solo aspero da ermida, e por longo tempo permaneceu em oração.{42} Quando a vaga claridade do luar nascente principiava a cobrir d'uma fina gaze branca a amplidão do mar, Frei Agostinho desceu tranquillamente a montanha em demanda da lapa de Santa Margarida, o seu retiro dilecto das noites luminosas.
Ah! a gruta de Santa Margarida!
Ide cortando as aguas com o rumo na serra da Arrabida. Quando ao sopé da serra encontrardes o legendario penedo chamado do Duque, onde D. Alvaro de Lencastre ia sentar-se a pescar, desembarcai. Então vos espera a maior formosura que jámais vos foi dado vêr. Abre-se em dois arcos a rocha, um que dá sobre o mar, outro que dá para as fragas. Entrai pelo do mar, até onde vos poder levar o vosso barquinho, como fazem os pescadores do Cabo quando vão ouvir missa ou levar offrenda á santa da Lapa. De repente arquea-se sobre vós a grande gruta silenciosa, cheia duma frescura e d'uma suavidade inalteraveis, sepultada num silencio religioso que o roçar das ondas parece não interromper. Recorta-se irregularmente em caprichosas estalactites o concavo da lapa. Em alguns pontos, foram subindo do solo as columnas vitreas a que os naturalistas chamam estalagmites, e tanto cresceram que poderam fundir-se com as grandes massas de carambina pendentes da abobada. Abraçaram-se, e fizeram columnas que tres homens não poderão circullar com os braços: Ao fundo da gruta tremeluz a alampada no singelo altarsinho de Santa Margarida, que o mar, quando nas marés vivas entra em cachões pelas rusticas arcadas, parece respeitar, desenrolando-lhe aos{43} pés um tapete de espuma: Quando isto não é, encarregam-se as ondas de alastrar de plantas e despojos marinhos o chão da lapa.
Ahi, como aprazia á sua alma, descançou Frei Agostinho da Cruz.
Houve um momento que pareceu de hesitação, durante o qual o solitario monge acompanhou com a vista os caprichosos recortes da vaga á bocca da gruta. O luar descrevia até meio da lapa uma zona clarissima. Frei Agostinho introduziu a mão direita entre o habito e o peito, e tirou a carta que o Padre Fernando de Santa Maria lhe havia entregado. Abriu serenamente e leu... Mas, lidas algumas palavras, Frei Agostinho levantou-se de golpe, avançou alguns passos como para conseguir que um raio da lua cahisse em cheio sobre o papel, tornou a ler, ergueu de novo a fronte, e, saccudindo o papel na mão nervosa, apostrophou:
—Bemdicto sejas tu, Senhor, que não te esqueceste de mim na minha solidão! Agora posso morrer no teu seio, ó santo Deus dos affligidos e dos peccadores.
E ajoelhou, e levantou os olhos ao ceu, e assim esteve longo tempo com a fronte cadaverica melancholicamente illuminada pelo luar.
A chave do segredo, que esse papel continha, está nos versos de Frei Agostinho, n'essa mesma noite escriptos na gruta de Santa Margarida. Dizem assim:{44}