A D. BRANCA
Como queres que negue a teu esp'rito,
Branca, serva da branca Virgem pura,
Mostrar o que me pedes por escripto?
Não sei eu por qual outra creatura
Os tristes versos meus desenterrara
Debaixo de tão alta sepultura.
Mas pois de branca queres fazer clara,
Aquella luz Divina te esclareça,
Que nunca a bons desejos desampara.
Não imagines cousa que te desça
Do caminho do Ceu breve, e seguro,
Por mais que trabalhoso te pareça.
Com penas immortaes do reino escuro
Não te quero espantar; pois seguir queres
A Cruz do teu Senhor por amor puro.
Que podes esperar, por mais que esperes,
Do mundo, que te tem desenganada,
Que te póde faltar, se a Deus te deres?
Se vires que por tudo deixas nada,
Por nada deixarás o que descança
No curso d'esta vida tão cançada.
A tanto subirás n'esta mudança,
Que não haverá dôr, por mór que seja,
Na qual não cresça mais tua esperança.
Assi de culpas minhas eu me veja
Tão longe, como perto ess'alma tua
D'aquillo, que esta minha ver deseja.
Que vás após de quem á custa sua
Por nos levar ó Ceu, d'onde nos chama,
Na terra padeceu morte tão crua.
Um firme coração, que em vós se inflamma,
Ardendo por se vêr de Vós amado,
Por Vos amar, Senhor, tudo desama.
Do tempo, que gastei tão mal gastado,{45}
Dera melhor razão, do que daria
De vos seguir, Senhor Crucificado;
Mas nunca a fraca voz me faltaria
Para dizer do mundo a falsidade,
Como quem n'elle andou cego sem guia.
Levanta os olhos teus á saudade
Do Summo Bem dos bens, e n'elle aprende
Aquillo que mais fôr sua vontade.
A Fenis, que do tempo se defende,
Antes que lhe falleça força, e vida,
No fogo se renova, em que se accende.
Não se põe mais a Rola, carecida
Do seu primeiro amor, em verde ramo;
Foge da fonte clara aborrecida.
Testimunha me seja por quem chamo,
Da verdade que escrevo brevemente
Nos versos que por seu amor derramo.
Que não podes sem elle ser contente,
Sem elle, que dilata seu castigo,
Por não negar perdão ao penitente.
Busca falsas razões o duro imigo
Para nos impedir que de mais perto
Possamos contemplar tamanho amigo.
Ah braços estendidos, Lado aberto!
Quanto se sentem mais as vossas dores
N'esta quietação d'este desejo!
Nascem n'esta asperesa brandas flores,
E n'ella tão suave doce fruito,
Como tu colherás, como lá fôres,
Amando muito mais quem amas muito.
Estes versos chegaram ao convento de Jezus de Setubal tres dias depois e, transcorrido um mez, dobrava austeramente o sino do convento annunciando a profissão da que outr'ora havia sido a tréfega aiasinha da infanta D. Izabel.{46}
Frei Agostinho da Cruz subiu vagarosamente ao seu eremiterio quando as estrellas começavam a empallidecer no ceu. Entrou em oração, e, horas volvidas, foi á ermida da Senhora da Memoria ouvir e dizer missa. Depois recolheu-se ao seu cubiculo, e ahi passou o dia no sagrado mysterio da solidão. Ao pardejar da tarde, perdeu-se na montanha a continuar as suas meditativas noites de asceta, a ultima das quaes foi a de 14 de março de 1619, em que, na enfermaria que a Provincia tinha em Setubal, santamente rendeu a alma ao Creador.
No convento de Jezus, áquella hora, ouvia-se tocar á agonia na egreja da Annunciada, contigua ao hospital, e pouco depois o dobrar do sino attraia á beira do cadaver de Frei Agostinho toda a população da villa de Setubal, que lhe retalhava o habito para guardar uma reliquia.
Ao outro dia vogava rio abaixo, nas aguas do Sado, uma falua, armada de muitos ramos e de ricas tapeçarias da casa de Aveiro. Transportava para a serra da Arrabida o cadaver de Frei Agostinho. Em torno do feretro agrupavam-se n'um silencio religioso o duque de Torres Novas, o marquez de Porto Seguro, e alguns religiosos arrabidos. O povo de Setubal alinhava-se na praia e, descoberto e reverente, abençoava o SANTO.
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Vai, ó casto poeta do amor, repoisar no grande tumulo granitico da tua montanha querida. Poeta e{47} monge, tens duplo direito a essa ingente sepultura, onde os monges, tristes e sós, foram muita vez genuflectir sobre a tua lage, e onde os poetas irão pelas idades a dentro pedir ao luar que lhes empreste os contornos phantasticos do teu vulto pensativo para te reporem sob a gruta de Santa Margarida meditando maguas secretas.
Podeste finalmente dormir, onde quizeste viver.
Se a tua musa jamais se librou magestosa nos epicos arrojos da lyra de Camões, cantor do coração e poeta do Amor como elle, a morte vos irmanou na grandeza da sepultura.
Para elle foi sepulchro enorme a patria. Quem sabe onde jaz? Era pequena uma cova para tamanho homem. Repoisa na patria, sepultura por dois lados orlada pelo mar. É-lhe epitaphio um poema. É-lhe monumento a historia.