Tu repoisas dentro da grande urna de pedra, cinzelada pela naturesa á beira das aguas marinhas. É-te epitaphio a montanha. É-te monumento a Cruz, porque ella recorda o teu nome, erguida sobre altar de rocha.
Era pequena uma valla para tamanho soffrer.
Assim foi que a morte igualou no somno derradeiro e glorioso o poeta guerreiro e o poeta monge, dois leaes amantes antigos, dois finos corações namorados, que pulsaram, um cingido na cota, o outro oppresso no habito, por duas damas formosas, Nathercia e Branca, que por longo tempo hão de{48} viver, não em o mundo phantastico dos poetas,[[2]] mas na extensa galeria das grandes dedicações portuguesas.
Aqui fica, n'este livrinho escripto com a sentida saudade que o teu destino inspira, ó santo eremita da Arrabida, o que quer que seja da mysteriosa poesia que as silenciosas noites da serra desabrochavam no teu coração.
FIM.
[[1]] D. João III era tão affeiçoado a este sobrinho, que lhe concedeu o tratamento de excellencia, sendo que o filho natural d'el-rei, D. Duarte, apenas tinha o de senhoria.
[[2]] «....Frei Agostinho da Cruz explicava as abstracções do amor divino, em versos da eschola italiana, a uma certa senhora D. Branca, hoje desconhecida. Dona Branca tambem seguia a vida religiosa, etc.»
Historia dos Quinhentistas,—Theophilo Braga.
Obras publicadas pela Empreza Editora CARVALHO & C.ª
THEATRO