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Eram aquelles os tempos do Amor.

Por toda a parte o coração era a mais fecunda, a mais vivida, a mais completa manifestação da Vida. A humanidade entrára no idyllico periodo da sua primavera. As flores do sentimento brotavam candidas e perfumadas sob os pés da Mulher deificada pela adoração. Deus estava no ceu e a Mulher na terra. A mesma religião absorvia e confundia estas duas grandes individualidades mysteriosas, porque Deus fôra gerado no ventre da Mulher virgem. Pois que o amor divino se librava puro, austero, immaculado, o amor terreno procurava igualal-o pela candura das suas intenções. O seculo XIV, um dos mais famosos seculos do grande cyclo amoroso, vê um rei de Inglaterra curvar-se para levantar a fina liga de seda da condessa de Salisbury, e ouve a legendaria imprecação do rei aos maliciosos cortezãos cujo riso envenenava esse extremo de galanteria{8} palaciana. E é d'essa pequena fita, acolchetada por esmaltadas fivelas de oiro, que o rei namorado quer fazer o mais ambicionado, o mais nobre, o mais difficil galardão cavalheiresco:—a jarreteira azul. O mesmo seculo vê um rei portuguez realisar á beira do Mondego o mais ardente e lacrimoso idyllio da tradição amorosa nacional, e, para diluir as sombras com que os validos de Affonso IV quizeram ennegrecer o que n'esse grande amor havia de puresa, mandar rasgar-lhes o peito e lavar a crudelissima affronta no sangue d'elles. A loira Ignez apparece depois de morta menos princesa que martyr. Os seus funeraes são uma apotheose; a memoria que de si deixa completa a deificação. D. Pedro quer que desde Coimbra a Alcobaça passe o athaude por entre duas filas de cirios, duas fitas d'estrellas—como diz Schœffer—; no tumulo de Ignez avultam entre os phantasiosos ornatos as azas que denunciam os cherubins. O Amor faz de Ignez um anjo, e é ainda pelo anjo, que voou, que a pequena fonte da margem do Mondego chora lagrimas de casta saudade.

Petrarcha não pôde esquecer n'este poetico seculo do Amor. Elle representa o mais puro, o mais santo, o mais ideial amor que é dado conceber-se: o amor sem esperança. Elle renega as tendencias voluptuosas da Roma classica, em que foi educado, e lança-se na solidão de Valchiusa, sem amaldiçoar Laura, quando o amor lhe dilacera o peito, como o açor póde dilacerar a pomba que empolgou.

Illumina-se phantasiosamente o seculo decimo-quinto com o renascimento das artes e das letras.{9} É o seculo de Lourenço de Medicis—o Magnifico—, o grande seculo em que tudo traduz o Amor: o marmore, a tinta, a linha. Leonardo de Vinci lança na tela a encantadora figura da Gioconda, a esposa adorada; Raphael dá á Virgem a formosura da florista de Florença, a fioraia, divinisando a Mulher. E ainda a Religião a companheira dilecta do Amor. São os papas que protegem as artes. Roma, a capital do mundo catholico, tambem o é do mundo artistico. São religiosos os assumptos de todos os quadros, que se pedem do Meio-dia e do Occidente. Sómente a Renascença torna a alma menos pura e o corpo mais formoso. Desapparecem das telas as pallidas figuras asceticas, e relevam sobre o peito feminino as curvas voluptuosas das mulheres pagãs. Magdalena transforma-se em Venus. Ainda um prodigio do Amor! É que o artista amante quer perpetuar na tela a mulher amada. A madona deixa vêr a fioraia.

O Bernardim das Saudades é a ponte amorosa lançada entre o seculo XV e o seculo XVI. Vós, cavalleiros gentis, para quem o Amor é uma tradição gloriosa, atravessai d'um seculo para outro por sobre o cadaver d'este pobre trovador, que deixou partido o bandolim sobre os tapetes da côrte.

O seculo XVI é o seculo de Camões. Basta dizer isto. Na alma do poeta pulsam as tendencias do seculo. O Amor anda na epopea a par da Gloria. As luctas do coração dão maior relevo aos poetas d'essa idade. A gruta de Macau ouve os suspiros de Camões; Diogo Bernardes chora á beira do Lima a traição de Sylvia; Agostinho da Cruz foge do paço{10} do infante D. Duarte para o eremiterio da serra da Arrabida.

Mas em Portugal as sinistras fogueiras dos autos de fé, mandadas accender por D. João III, haviam empallidecido nas telas as figuras pagãs da Renascença. Então, se o Amor pintasse na côrte portugueza, usaria as sombrias tintas da eschola de Ombria. Dir-se-hia que Fra Angelico resuscitára para succeder a Raphael.

Frei Agostinho da Cruz é o Fra Angelico da poesia portugueza. Um ia cobrindo de melancolicos frescos os muros do seu convento de Fiesole; o outro, entalhava nas arvores da Arrabida os seus versos religiosamente tristes e amorosos. Em ambos um coração de artista amortalhado no habito. Ambos abençoados por Deus na hora do passamento.

Assim, porém, como por sobre o cadaver de Bernardim, involto na sua capa de trovador, atravessa do seculo XV para o seculo XVI a tradição amorosa, assim tambem o cadaver de Frei Agostinho da Cruz, involto no seu habito de franciscano, é a ponte lançada entre o seculo XVI e o seculo XVII, entre as caladas grutas da Arrabida, onde Agostinho poetava, e a cella do convento da Conceição de Beja, onde Marianna Alcoforado recebia o sr. de Chamilly; entre o paço do infante D. Duarte, onde os monges arrabidos iam praticar sobre a conversão de Frei Jacome Peregrino, devida a uma simples visita que fizera á santa montanha barbarica, e a côrte de Luiz XIV, onde o Amor não havia perdido ainda a sua velha influencia de tres seculos, mas decotava{11} as suas impuresas com a mesma thesoira doirada com que a La Valliére, a Montespan, a Fontanges e a Maintenon decotavam os seus vestidos.