Iam a desfolhar as ultimas florescencias da Primavera do coração, crestadas pelo bafo ardente da sensualidade palaciana. Começavam a amadurecer os pomos do Outomno.

Á flor, na sociedade como na natureza, succedia o fructo. Após os seculos da Guerra, das correrias, das conquistas, das lanças e das cruzadas, tinham vindo os seculos do Amor, das ambições de gloria, das grandes proesas namoradas, dos altos feitos poeticos. Era chegado o momento de soar no eterno relogio das gerações a hora dos indeterminados seculos do trabalho e do pensamento, da força moral e da potencia intellectual, das conquistas pelo estudo e pela perseverança, do cyclo vencedor e forte, não da duresa do ferro, de que se fabricavam as velhas armaduras, mas da duresa do silex, de que brotam centelhas.

Sim, meu solitario poeta da montanha da Arrabida, humillimo eremita d'esses fraguedos bemditos, o teu vulto melancolico e pensativo apparece ainda de pé, olhando para o mar sereno e curvo, ao limiar da tua ermida, como encostado á porta d'um templosinho invisivel onde se rendesse o derradeiro culto ao doce platonismo de Petrarcha, onde ao sopé da Cruz houvesse duas mulheres, ambas santas, ambas moças, ambas formosas, chorando uma de saudade, outra de arrependimento, mas ambas por Amor,—Maria e Magdalena. Sim, eu ahi te vejo a meditar{12} no que foi a tua breve mocidade, ó castissimo asceta, em quanto os passarinhos da serra te vinham poisar sobre os hombros descarnados, como diz a legenda, e as feras da matta vinham procurar-te á mão, como aos antigos padres do deserto, o teu duro e escasso alimento de solitario.

Sim, eu entrevejo-te nas tuas longas noites silenciosas, na bem-aventurada velhice dos teus sessenta e cinco annos, nos primeiros tempos da tua religiosa solidão, antes que o duque de Aveiro te mandasse edificar a ermidinha que ainda hoje se conserva, escondido ao fundo da tua cabana, por ti mesmo entretecida de ramos, encostado ao breviario, e ao pé dos seccos feixes de matto, que te serviam de cama... Por unicas alfaias em toda a choça, as disciplinas e os cilicios. Fóra, a noite, a noite tepida e luminosa, esmaltada de estrellas dormentes; e em baixo, ao fundo, o grande mar, a ampla bahia, curva como um alfange, narcotisada pelos effluvios do luar.

E tu, mudo e recolhido, deixando invadir-te a alma a placida doçura das estrellas e das aguas, escutando—porque não hei de dizel-o?—os eloquentes silencios da noite, que desciam á profundesa harmoniosa do teu peito, e mansamente o atravessavam, e de lá voltavam a derramar-se na amplidão luminosa do firmamento, já transformados n'estas e outras palavras puras e sonoras como o oiro:

Alta Serra deserta, d'onde vejo
As aguas do Oceano d'uma banda,
E d'outra, já salgadas, as do Tejo:
Aquella saudade, que me manda{13}
Lagrimas derramar em toda a parte,
Que fará n'esta saudosa, e branda?
D'aqui mais saudoso o sol se parte;
D'aqui muito mais claro, mais dourado,
Pelos montes, nascendo se reparte.
Aqui sobe-lo mar dependurado
Um penedo sobre outro me ameaça
Das importunas ondas solapado.
Duvido poder ser que se desfaça
Com agua clara, e branda a pedra dura
Com quem assi se beija, assi se abraça.
Mas ouço queixar dentro a lapa escura,
Roidas as entranhas apparecem
D'aquella rouca voz, que lá murmura.
Eis por cima da rocha aspera descem
Os troncos meio sêccos encurvados,
Eis sobem os que n'elles enverdecem.
Os olhos meus d'ali dependurados;
Pergunto ó mar, ás plantas, ós penedos
Como, quando, por quem fôram creados?
Respondem-me em segredo mil segredos,
Cujas primeiras letras vou cortando
Nos pés d'outros mais verdes arvoredos.

Esta musica ineffavel, que subia para Deus em ondulações maviosas, traziam da tua alma os silencios da noite: tal as abelhas do Hymetto, atravessando a florida espessura do açafrão cheiroso, traziam para o colmeal o alvo mel dos banquetes atticos.

Outras vezes rugia sobre o mar a tormenta, rasgavam-se de instante a instante em listrões de fogo os fluctuantes crepes do ceu, o ribombar do trovão vinha rolando montanha abaixo em echos entrecortados, o gigante de pedra, em cujo dorso se entremostrou radiosa de nimbos mysteriosos, em remotos{14} tempos, a imagem de Nossa Senhora, ao mercador Haildebrant, cuja embarcação, contrastada dos ventos, dobrára o cabo de Espichel,—o gigante de pedra, minado pelo oceano, cingia contra o seu peito robusto a Cruz da Redempção, e com ella cobria as caladas ermidas dos solitarios arrabidos a essa hora prostrados em meditação piedosa...

E tu eras entre todos o que melhor comprehendias a linguagem vaga da noite, quer a houvesses de interpretar no poema das estrellas, quer na epopea da procella, porque no teu claro espirito havia aquella fina sensibilidade que tem ouvidos para os mais subtis rumores, olhos para as mais fugazes visões, e voz para responder ás mais incoerciveis revelações...

A noite! a noite!