De noite avoejam errantes pela atmosphera pensamentos vagos e alados, que umas pessoas sabem traduzir, outras presentem sem comprehender. Tem a noite seus insectos e pensamentos peculiares, e uns e outros passam no ar com fremitos mysteriosos. Só o naturalista conhece os primeiros, atravez da negrura; só o poeta conhece os segundos. E quem não é uma nem outra coisa, philosopho ou poeta, fica amedrontado do rumor que passa adejando, e phantasia espiritos maleficos e creações sobrenaturaes no que são apenas manifestações subtis da grande vitalidade nocturna. E d'aqui nasce a visionaria cobardia que pelas horas do silencio e da quietação saltea o animo do commum das pessoas. E como tudo o que ha de mais incerto, escuro e insondavel{15} é a morte, esses ligeiros fremitos que passam remoinhando arrastam aereamente o grande, o triste, o fatal pensamento da morte. Quantas pessoas não ha ahi que vivem despercebidas da mortalidade do corpo os mais trabalhosos, os mais duros, os mais soffridos dias da sua vida? Expostas a perigos temerosos, durante as horas de sol, ellas os atravessam fortalecidas pela esperança de que os hão de vencer finalmente. Oh! mas se de noite acontece lembrar-lhes a materia que são mortaes, e que é incerto o momento da anniquilação corporal, ahi acodem de tropel os estremecimentos nervosos, os sustos imaginarios, os pavores phantasticos. A noite affigura-se-lhes uma sepultura enorme, cheia das concavas sombras das grandes cavidades, coberta pela bronca abobada das cryptas tenebrosas, e sentem-se despenhar, saccudidas por mão invisivel e herculea, ao vacuo d'essa profunda negrura, em cujo fundo está um mysterio terrivel e insondavel —a eternidade!
Cuidam ouvir o baque do proprio corpo, e depois um como estrondoso ranger de enormes ferrolhos em anneis de ferro, como se se estivessem cerrando para todo o sempre as portas que separam o mundo das visualidades terrenas do mundo da eterna realidade.
Portanto, que admiraveis são as almas que, á similhança da tua, ó pallido eremita! se concentram serenas e firmes deante dos horrores da noite, sondando-a, contemplando-a, lendo-a, adivinhando-a no que ella tem de mais fugitivo e aereo, por mais ermo{16} que seja o logar, por mais adeantada que seja a hora, por mais profunda que seja a meditação!
Admirado sejas tu, que estendias os braços ciliciados para abarcares a nuvem collossal da escuridão e do silencio contra o seio desoffegado e placido, como se lhe quizesses dizer, a essa grande massa feita de trevas e de mysterios: «Tu, que és a eternidade, a morte, o repouso, ouve bem as compassadas palpitações do meu coração tranquillo. Eu estou resignado, e até ancioso de que a tua aza negra me arrebate.»
Isto dizia por ventura elle, na vasta solidão alpestre da Arrabida, na hora em que, pelas mais populosas cidades, os outros homens, apesar de reunidos como em exercitos, para melhor baterem os phantasmas imaginarios da noite, levantavam barreiras de musica e de luz, dentro de suas casas, e reuniam em torno de si as seducções femininas, que possuem o segredo de aligeirar as horas, para fazerem rosto á invasão da treva e do silencio, á onda escura que se derrama pelo ar, pelas ruas, pelas praças, pela vastidão da terra e das aguas.
Uma coisa ha grandiosa, imponente, por vezes terrivel e invencivel como a noite: é o Mar.
Tem querido o homem explicar a noite e o mar, descer ás profundesas d'uma e d'outro, estudar as radiações nocturnas do firmamento e as brancas e rosadas ramificações dos jardins submarinos; desenvencilhar os rastros de luz que se cruzam sobre a saphira celeste e as enormes filigranas de animalculos e plantasinhas que se enredam no fundo das{17} aguas marinhas; explicar a vida que palpita sob a nuvem e a vida que palpita sob a onda.
Oh! mas que de mysterios ainda! que de problemas a resolver! que de factos a demonstrar!
Por isso a noite e o mar serão ainda por muito tempo, e talvez eternamente o sejam, companheiros inseparaveis de superstições tradicionaes e horrores irresistiveis.
Mas tu, ó poeta do ermo, escondido na tua montanha, que sobrancea o mar, tu contemplavas, de dia ou de noite, com religiosa firmesa, esse magestoso visinho cheio de mysterios e de vozes, de força e de humildade, de sanha e de candura.