Para ti a fragil embarcação que navegava dobrando o famoso cabo, onde os geographos antigos quizeram assignalar o fim da terra, não era a ousadia humana que passava, orgulhosa de domar as aguas, vaidosa das suas flammulas e das suas velas desfraldadas: a ti affigurava-se-te um enorme altar fluctuante, no qual se erguiam os mastros cortados pelas vergas em forma de cruz; e o cordame fazia-te lembrar o labyrintho phantasioso de estreitas cortinas e sanefas pendentes d'um templo que fosse vogando mar em fóra em louvor de Deus.

E mais fundo se te arreigava no coração esta crença quando a maruja, passando em frente da santa montanha, saudava em brados festivos a Estrella do mar, não menos resplendente que no tempo de Haildebrant, a Estrella do mar engastada no seu vasto oratorio rustico, que de nordeste a sudueste corre na extensão de cinco leguas, dominando pelo{18} norte as aguas do Tejo e esse formoso archipelago de pequenas aldeas que se chama Azeitão; sobranceando pelo sul a larga corrente do Sado, e as ruinas da velha Troya; avistando no horisonte que se rasga pelo sudueste a orla alvacenta do Alemtejo e dos Algarves.

Onde houve na terra mais dilatado, magestoso e perduravel altar! Assombroso era o templo de Diana em Epheso, e um dia os incendios atiçados por Erostrato devoraram-n'o. Mas pelas tuas columnas e os teus artesãos de pedra, ó santa montanha da Arrabida, pódem collear á vontade as chammas dos fachos iconoclastas, que os não hão de crestar nem abalar na sua immobilidade eterna.

Estas e outras grandesas do formoso retiro monastico referiam os monges arrabidos em Lisboa nas salas piedosas da infanta D. Izabel fundadora do convento de Santa Catharina de Ribamar, e viuva do infante D. Duarte, irmão de D. João III. Quando este monarcha houve por bem dar casa a seu sobrinho D. Duarte, orphão d'aquelle infante de egual nome, o pae de Agostinho Pimenta conseguiu acommodar o filho no paço do imberbe neto de D. Manuel, onde Pedro d'Andrade Caminha tinha os cargos de camareiro e guarda-roupa.

Era Agostinho Pimenta um mocinho de idade igual á do infante a quem vinha servir, saudoso da amenidade bucolica do seu Lima, onde elle, em companhia de seu irmão Diogo Bernardes, versejára voltas e glosas em honra da naturesa.

Foram-lhe lançando n'alma as saudosas paizagens{19} do Minho, os germens d'umas tristesas suaves, que algum dia chegam a florecer dolorosamente, e que ás vezes se desentranham em fructos de lagrimas, quando a vida consegue demorar-se até á sazão do outomno.

Nestas disposições de animo contemplativo entrou Agostinho Pimenta nas salas duma princesa viuva, e dum infante cujo caracter melancholico todos os dias mais se ia domando ao geito do eremitico apartamento que os religiosos da Arrabida, certos frequentadores da casa, encareciam á mãe e ao filho, principalmente Frei Jacome Peregrino, cuja conversão, como de leve tocamos, dependeu d'uma simples visita á montanha.

Intencionalmente deixamos em silencio os nomes das duas infantas filhas de D. Izabel de Bragança, D. Maria e D. Catharina, duas timidas meninas que viviam constrangidas nos soporiferos habitos do paço, e que de nenhum modo podem dar relevo ao grupo da familia do infante D. Duarte.

A primeira d'estas meninas veio a casar para Flandres com o principe Alexandre Farneze; a segunda desposou seu primo co-irmão D. João, sexto duque de Bragança, e figura como pretendente á coroa em 1580, epocha em que o seu nome entra por assim dizer na historia de Portugal.

Entre os fidalgos que concorriam habitualmente ás salas da infanta D. Izabel, era dos mais assiduos o terceiro duque de Aveiro, D. Alvaro de Lencastre, mui celebrado nos livros antigos pela sua particular affeição ao mosteiro da Arrabida.{20}