Este fidalgo presava grandemente os talentos e qualidades do moço Agostinho Pimenta, e não raro descaiam suas conversações nos assumptos religiosos, que fluctuavam ao de cima de todas as preoccupações n'aquella nobre casa.
Agostinho inflammava-se então nos arrebatamentos proprios da sua idade, e umas vezes ardentemente encarecia na presença dos fidalgos o espirito aventuroso dos mancebos portuguezes que, á similhança do poeta Luiz de Camões, a esse tempo em Macau, iam militar no Oriente; outras, arrastado pela suave e convincente palavra de Frei Jacome e demais arrabidos, parecia deixar entrever vislumbres de propensão á vida ascetica do eremiterio.
Acontecia sempre que o camareiro do infante D. Duarte, Pedro de Andrade Caminha, affrontado com os gabos do moço Pimenta ao gentil ardimento de Luiz de Camões, a quem profundamente odiava, sahia a ripostar-lhe com deslavados epigrammas ao solitario da gruta de Macau, cujo officio era, no seu entender, acutilar com a pena as authoridades de Goa, que o deportaram para a China, como em Lisboa havia acutilado com a espada o pescoço de Gonçalo Borges, criado do rei, o que lhe valeu ter que ir servir na India por grande clemencia real.
Agostinho Pimenta tinha as opiniões contradictorias de quem ama pela primeira vez, e receia as consequencias do primeiro amor, proclamando agora a superioridade do coração humano sobre as pequenas contrariedades amorosas da mocidade, e logo a poetica abnegação de quem sacrifica a vida inteira{21} ao serviço de Deus, depois de mal succedido nos amores terrenos.
Batido no campo das tendencias aventurosas umas vezes por Pedro Caminha, outras vezes pelos capuchos da Arrabida, Agostinho Pimenta via-se encurralado no reducto do fanatismo religioso, e esta idéa, lentamente insinuada, acabou por tomar no seu animo a consistencia d'uma estalactite formada gotta a gota no tecto d'uma gruta.
Frequentes vezes relembrava a infanta D. Izabel a brevidade da felicidade terrena, como para resignação sua e dos religiosos que a escutavam. Recordava com tranquilla tristeza a magnificencia dos seus desposorios com o filho de D. Manuel, celebrados em Villa Viçosa em abril de 1537. Não exaggerava historiando com piedoso desdem o apparato d'essa festa nupcial, que a dedicada amisade de seu irmão D. Theodosio de Bragança quizera tornar esplendida. Uma phrase de Damião de Goes corrobora as maguadas recordações da infanta: «O aparato d'estas festas foi tamanho—diz o chronista manuelino—que com assaz trabalho o poderá um Rei fazer com mór magnificencia.» D. João III, se não ordenára as festas, assistiu a ellas, com os infantes seus irmãos, e a flôr da sua côrte. Fôra elle que justára o casamento com D. Theodosio. Cabia-lhe, pois, a iniciativa d'esse enlace que parecia prometter uma longa e venturosa duração, e que tão breve foi. El-rei, que se achava no paço d'Evora a esse tempo, fôra esperado pelo duque D. Theodosio a meia legua de Villa Viçosa. Seguiu-se o jantar nupcial, no paço do duque,{22} em que D. Izabel teve logar ao lado do rei, e o duque logo abaixo dos infantes. Sobre todas estas recordações do seu noivado passava nos labios da infanta viuva um sorriso triste e resignado. Com fidalga saudade, digamos assim, encarecia a gentil presença, bondade e piedade do infante seu marido. Então acudia algum religioso de S. Domingos ou da Arrabida a elogiar os dotes intellectuaes de D. Duarte, que praticava em latim com o seu mestre André de Rezende, e recitava ao revez, de memoria, qualquer capitulo de Cicero; e ditava quatro cartas ao mesmo tempo, e compunha musica e poesia, e cantava, e jogava as armas, e era caçador eximio. Quando vinha a lume esta prenda da caça, ainda a infanta se lastimava dos incommodos que, mesmo depois de casado, se dava o infante quando sahia a montear, e era certa a millessima edição do caso de lhe haver um seu privado exposto os perigos dos excessos venatorios, e o infante respondido que bom era educarem-se os homens em asperos exercicios para melhor poderem soffrer os trabalhos da guerra. Esta longa resenha das virtudes e talentos de D. Duarte seguia quasi sempre a ordem chronologica da sua biographia, e portanto força era relembrar a sua morte, por elle predicta, e o cilicio com que mysteriosamente trazia cingidas as carnes, e a pomba que ao passar a sua tumba, caminho de Belém, onde jaz, pelo hospital de Todos os Santos, voara mansamente para o ceu.
Fôra n'esta atmosphera fradesca e milagreira, onde continuamente se apregoava o ephemero e fragil{23} das felicidades terrenas, ainda mesmo das mais santamente conquistadas pelo amor e pela virtude, que o moço Agostinho Pimenta respirou tristemente ao entrar na sociedade para onde o mandaram desterrado do seu bucolico Minho.
Mas eu já vi uma vez, navegando Douro acima, empinar-se sobre a margem esquerda o mais arido, o mais calcinado, o mais duro fraguedo que póde imaginar-se, e pendurado d'uma rocha, e como que nascido do seio d'ella, o mais verde, o mais fresco, o mais curvo festão de verdura que se poderá descrever. Era nos fins de julho, pelos grandes calores. Havia uma hora que navegavamos por entre alcantis que se recortavam com os vagos contornos de gigantes de pedra. Nas frontes tostadas dos marinheiros porejava o copioso suor do trabalho. A corrente era pequena, e o barco subia vagarosamente a impulsos de vara. Dariamos um thesoiro, se o tivessemos, por uma sombra de oasis. Mas o deserto, que era de pedra, parecia infindo. Apertava comnosco o vago receio que nos dá a solidão nas longas horas da charneca alemtejana, aggravado pelo sol canicular que sobre nós cahia a prumo. De repente, ao dobrar uma volta do rio, surge como por encantamento, desconhecido dos marinheiros, o largo e alto festão, que promettia sombra deliciosa para o descanço de meia hora. Foi assombrosa a nossa alegria. Como e quando nascera ali aquelle braço de verdura que parecia estender-se amigavelmente ao viajante para lhe offerecer abrigo? Ninguem o sabia; não o poderam dizer os marinheiros.{24}
Assim tambem ninguem podéra dizer como desabrochara o coração de Agostinho Pimenta no sombrio paço que fechára as portas ao Amor quando o cadaver do infante D. Duarte sahira para Belem.
Entre as damas que serviam a infanta D. Izabel uma havia, D. Branca de Noronha, cuja formosura floria nas graças senhoris dos dezesete annos. Tambem ella fazia lembrar o oasis no deserto. Esta gentil menina contrastava singularmente com as melancholicas tendencias da familia e commensaes da infanta viuva. D. Izabel era inalteravelmente a piedosa fundadora do convento de Ribamar; seu filho, o infante D. Duarte, havia recebido para todo o sempre a influencia d'uma educação intolerantemente religiosa; Pedro d'Andrade Caminha conciliava como podia as suas malquerenças como homem com o seu fanatismo religioso como camareiro do infante; os franciscanos da Arrabida traziam para as salas do paço a melancholia inherente á solidão do eremiterio. Delimitando os extremos d'esta sociedade espessamente taciturna e aborrida,—duas creanças quasi de egual idade, posto que de genios differentes,—Branca de Noronha e Agostinho Pimenta.