Quem dera ás duas irmãs de D. Duarte o poderem espanejar-se, ainda que tambem a medo, como a lepida aiasinha Branca!

Ella era a inquieta encarnação da alegria, a onda limpida que, sem se amedrontar com o aspecto sinistro das ribas solitarias, as cobre de instante a instante com as suas abundantes rendas de espuma, e as suas pequenas perolas de agua. Era o unico{25} riso que borboleteava ao de cima da melancholia quasi conventual d'aquella casa, e, como o riso é por via de regra a expressão da alegria, jámais se deixou contagiar da tristesa que empallidecia os semblantes, e hybernava nos corações.

Agostinho Pimenta, cujos habitos infantis foram os de um poeta que desabrocha entre a pensativa bellesa das paizagens do campo, não teve força bastante para se deixar ficar embellesado nas scintillações que de quando em quando lhe relampagueava a mocidade, e assim foi que cedeu á pressão religiosa da infanta viuva e dos monges arrabidos.

Branca de Noronha sorria d'elle com uma graça capaz de abalar a seriedade de Frei Jacome Peregrino, se ella poderá dizer-lhe com a mesma franquesa os chistes com que de emboscada accomettia o moço Agostinho Pimenta.

Não raro acontecia, á volta d'um corredor, encontrarem-se os dois, e curvar-se ella em palaciana misura para dizer-lhe:

Deo gratias, Padre Frei Agostinho!

E despedia n'uma graciosa corrida, atabafando com a mão delicada o seu metallico rir senhoril.

Tantas vezes se repetiu a amavel zombaria da formosa aiasinha da infanta, que o moço Agostinho Pimenta resolveu aproveitar um d'estes frequentes episodios para dizer-lhe:

—Não graceje, Dona Branca, que póde vir a converter-se em realidade o que nos seus labios é zombaria. Está na sua mão, direi antes no seu coração, o atirar-me para a solidão conventual...{26}

—Vejo que tem aproveitado as lições de Frei Jacome Peregrino...