—Ah! não continue a zombar, Dona Branca!
—Quer então que eu chore a conquista de mais uma alma para o ceu? Não deve ser. O sr. Agostinho Pimenta tem inclinação para a vida monastica. Eu não tenho. Que se me dá que vista o habito? Vista, se quizer. Será mais um religioso que frequentará as salas da sr.ª infanta...
—É-lhe então absolutamente indifferente que eu professe?
E D. Branca, sem responder a esta pergunta, a que o novel poeta das margens do Lima dava uma importancia apaixonada, mesurou graciosamente e motejou:
—Padre Frei Agostinho, queira Vossa Charidade recommendar-me aos seus irmãos capuchos.
E desappareceu com a ligeiresa d'uma arveloa. Agostinho Pimenta era, como sabemos, o poeta educado pela naturesa, que tem o segredo de aconselhar tristesas. Accrescia que respirava n'um meio onde o fanatismo religioso se inoculava lentamente, durante a somnolencia dos serões fidalgos, como as emanações da mancenilheira, durante o indiscreto somno do viandante. Fez-se mais pensativo que nunca no decurso de tres dias, durante os quaes algumas vezes lhe chegára aos ouvidos o leve rir descuidado da aiasinha. Ao cabo do terceiro dia foi ao encontro do provincial Frei Jacome, que estava praticando com a infanta e o infante n'uma das salas do paço, e, depois de solicitar venia de D. Duarte e{27} sua mãe, pediu ao virtuoso monge que lhe permittisse vestir o habito da sua Provincia.
Jubilou Frei Jacome com a resolução do moço Pimenta, com que elle contava havia quatro annos, attribuindo-a candidamente á efficacia dos seus conselhos, similhantemente ao pomareiro que se vangloria de que a arvore fructifique mais pelo seu trabalho do que por espontaneidade da naturesa.
Correu o anno do noviciado ou da approvação de Agostinho Pimenta, como então se dizia, no conventinho de Santa Cruz da Serra de Cintra, do qual elle ao depois tomou o appellido na profissão, como deixou escripto:
Nasci, e renasci na Casa em dia
De Santa Cruz, da Cruz o nome tenho.
Durante o noviciado, que principiou em 1560, Agostinho Pimenta parecia por vezes entrever nas suas visões monasticas a formosa imagem da aiasinha da infanta, e então era o descer da serra de Cintra e vir em cata d'essa visão, que o podia salvar antes que as portas do conventinho de Santa Cruz se fechassem eternamente sobre elle. D'estas visitas ao paço do infante D. Duarte, dá recatada e dissimulada conta o biographo José Caetano de Mesquita, quando diz: «E ainda que conservou algumas correspondencias de pessoas instruidas, julgando não desdizer da austeridade do seu instituto condescender com os seus amigos, achando-se nas suas mezas, e comendo dos delicados pratos com{28} que eram servidas; comtudo sempre se houve com religiosa modestia, e o decoro devido á mesma reforma.»