—Perdoa-me, anjo, se te vou magoar com a minha primeira confidencia, mas devo-te a verdade toda. Eu não sou tão rico como geralmente se suppõe. Gastei muito, quasi esbanjei na sociedade o patrimonio da familia. Quero porém que tu vivas feliz, e para attingir a tua felicidade apenas encontro abertos dois caminhos: ou o trabalho honesto ou a tranquilla solidão. Se desejas viver no extrangeiro, poderei obter uma embaixada; mas se preferes viver no meu e teu paiz, temos que recolher-nos á provincia, e viver na doce tranquillidade que o mundo da capital não conhece. Só te peço que sejas franca. Decide, e a tua vontade será lei.

A resposta foi esta:

—Partiremos amanhã para o teu solar. A felicidade está onde a gente a tem; tel-a-hemos lá. A vida no extrangeiro seria a prolongação da tua mocidade; ora eu tenho direitos incontestaveis ao teu coração. Quero-o, pois. E onde melhor o possuirei do que na solidão do lar, onde, fechada a porta, seremos nós os unicos habitantes do nosso mundosinho de felicidade? Vamos lá, meu amigo. Nem sabes como me sinto alegre! Quanto mais te distanciares do passado, menos ciumes terei d'elle. Vamos lá.

Foram.

O solar, construcção coeva dos primeiros tempos da{27} monarchia, era mais acervo de ruinas que palacio de nobres. As pedras haviam-se desconjunctado, e a hera marinhava pelas fendas até ensombrar as janellas. Nos longos corredores havia a escuridão sinistra dos carceres. As salas, denegridas pelo tempo, eram d'uma vastidão que punha medo. A mobilia, tão deteriorada como o edificio, tinha o aspecto funebre de phantasmas que á meia noite se fossem sentar encostados ás lousas do cemiterio. Os grandes contadores de pau preto negrejavam a pequenos intervallos como ossadas de gigantes carbonisadas em forja de cyclopes. Por entre a escuridão e o silencio da casa algum pipillar d'andorinhas, que penduraram o ninho entre as ruinas. Tambem ás vezes no cemiterio, no meio da concava sombra dos chorões, assim chilriam uns passarinhos que fogem quando presentem gente, porque estão habituados ao socego das campas.

As sombras da casaria deserta apavoraram a noiva de X. Uma noite uma coruja fôra piar a uma das janellas do solar. A pobre senhora estremeceu e chorou.

Acudiu o marido a abraçal-a meigamente.

—Tinha sido melhor, disse elle, optarmos pelo estrangeiro. Isto aqui é triste. Ainda se as andorinhas se não calassem de noite...

—São os nossos unicos amigos, respondeu a dama. Se esta casa não é completamente sepulcro, a ellas o devemos. Mas, meu amigo, as andorinhas me bastam para conforto. Eu chorei porque estava triste; não foi que tivesse medo. Não te inquietes...

—Não, anjo, não. É preciso sahirmos d'aqui...