—Para o extrangeiro não, não?

—Socega, filha. Pois que estes montes te amedrontam{28} menos que estas paredes, e que te resignas ao sacrificio, ficaremos. Limitar-nos-hemos a mudar de casa. Amanhã tractarei de ajustar a edificação d'um predio que tenha em conchego o que aqui perdemos em vastidão. Bem vês que mais nos aproximaremos ainda. Eu quero ouvir a tua voz a todo o instante. E depois, como sabes, o berço das creanças costuma ser pequenino, e tu vais ser mãe. A nossa nova casa será pois o berço de nosso filho. Escolho o laranjal. O vento que passar agitando as folhas embalará o berço... Queres?

—Se quero!{29}

VII

Construida a casa ao centro do laranjal, entrava a felicidade pelas janellas com os murmurios e os olôres de fóra.

Ficara deserto o solar na eminencia em que assentava. Negrejava como o cavername de navio naufragado sobre rochas. Eram as ruinas do passado, os escombros do feudalismo que dormiam o seu somno de seculos; o cottage do laranjal era alegre como a liberdade estensiva a nobres e plebeus:—aos nobres, porque já lhes não pesava a tarefa de mandar; aos plebeus, porque já não eram servos de gleba.

As corujas invadiram as ruinas em competencia com as trepadeiras que bracejaram desaffogadamente, e as pavidas visões da esposa de X ficaram lá sepultadas para nunca mais a perturbarem emquanto costurava o enxovalsinho da creança que ia nascer.{30}

O fidalgo pasmava do poder regenerador da familia, que lhe tinha raspado da alma a ultima lepra da extravagancia. Não via mais mundo do que aquelle. Andava a toda a hora a olhar para o berço vasio, ancioso de vêr sobre o travesseiro o relevo d'uma cabeça pequenina. Não faltava já o lençol de rendas nem a coberta de damasco: o que faltava era a creança. Pozessem alli dentro uma alma, e a felicidade ficaria completa.

Chegou finalmente o dia de se realisar o venturoso sonho. Desdobrou-se a cobertasinha adamascada, acamaram-se as rendas para não maguar o corpinho delicado, e ali dormiu a creança o primeiro somno velada pelo pai que nem ousava beijal-a para não a maguar.

Aos cinco annos a creança tinha já um portesinho senhoril que era de namorar os olhos. Muito redondo o vestidinho; os cabellos annelados e auri-luzentes; o pequenino corpo escondido na fita que lhe servia de cinto.