Dizia a morgada que as senhoras da terra,—as quaes eram amantes de varios morgados casados,—já não levantariam o olhar, se a encontrassem nos caminhos, para a amante de seu marido.

Era um modo de dizer que o escandalo tinha estrondeado, e que Jesus Christo não voltaria mais ao mundo, porque nenhuma das voluntarias peccadoras se arreceiava de ser a primeira a apedrejar a peccadora incauta.

De feito, Christo ainda não voltou, nem já agora voltará, porque ainda os vendilhões da honra alheia entram ao templo da familia, e as mulheres adulteras erguem vozes e pedras contra a que resvalou para o abysmo em que ellas estão.

A menina tratou de emmassar as cartas do morgado e de metter no seio o bilhetinho que já tivemos occasião de lêr.

Esperou que fosse noite, e metteu-se a caminho.

Onde ia a pobresinha?

Procurar o morgado ao Porto.

Foi andando, andando, rasgando os pés nas burguas{36} das serras, rompendo a escuridão, arquejante, timida do menor ruido, resoluta da coragem que dá o desespero, até que, cerca das onze horas da noite, cahiu extenuada ao sopé das Victoreiras.

N'este lance entronca a minha primeira carta bastante a explicar o mais que se passou.

Como se vê, o morgado não estava prevenido da fuga da menina e sob a afllicção da surpresa escrevera as ameaças da primeira carta que recebi.