E não haver um sal que se lhe dê a respirar! um espelho para lhe receber o halito, se ainda o tem! uma voz que nos anime! um espirito que comprehenda a nossa tribulação! porque os marinheiros do Douro são os puros cadeirinhas do rio! Fazem tudo mechanicamente; teem força: puxam por ella. Perdão, pelo que elles puxam é por nós, pelo barco, e por elles mesmos. Podiam ter nascido bois, e nasceram homens. Tambem os cadeirinhas podiam ter nascido burros de carga e nasceram gallegos. Que a natureza emendasse a mão em qualquer feitura humana, comprehende-se, porque tambem aquelle artista, que estava a fazer o demonio calcado pelo archanjo, mudou de tenção, por quebrar os chifres ao demonio, e aproveitou a esculptura para fazer um santo deitado.
O que é certo é que a natureza humana, tirante os marinheiros de riba-Doiro e os cidadãos de riba-Minho, é tão nobre, tão dedicada,—e perdoe-se-me a vaidade de a estudar em mim mesmo—que logo me esqueci da urgencia de abreviar a viagem, de descarregar em Castello de Paiva os meus generos, e concentrei todas as minhas attenções n'aquella mulher que não conhecia, que vagueava a deshoras por uma serra, com risco de rolar ao Douro,{12} sósinha com a sua ideia, que era provavelmente uma grande dôr.
Permitta-me—entre parenthesis—que chame á dôr moral uma ideia e não um sentimento. Isto é philosophia minha. Quando se acorda pela manhã, e se lembra a gente do soffrimento da vespera, é que continua a sentir o que na vespera sentiu. E que tal! approva? Eu quando fui d'uma vez ao Porto, acompanhar o meu patricio Barros que ia fazer concurso para uma cadeira de philosophia n'um lyceu do sul, e ouvi argumentar um tal Albuquerque d'oculos verdes, adquiri a convicção de que tambem podia ser philosopho, mais pelo que ouvi ao Albuquerque do que pelo que ouvi ao Barros.
A verdade é, meu amigo, que a nossa alma verga ao perigo como o aço ao joelho.
Pozessem no meu barco um farrabraz, um mata-mouros, um espadachim, ao pé d'aquella mulher, e ainda que esse stentor não tivesse esposa, nem filha, nem—ó prodigio!—tivesse mãe, elle sentiria o que eu senti, a abnegação das situações anormaes, a ancia de valer a quem está carecido de soccorro, a necessidade de saber se aquella mulher estava morta ou viva!
Cobri-a com todas as mantas que havia no barco, as dos marinheiros e as minhas, a vêr se provocava a reacção; lembrei-me de que tinha aguardente comigo, friccionei-lhe os braços e os pés, e, ao agasalhal-a, ao conchegar-lhe a roupa, senti que tinha no bolso papeis.
Bem podia ser que alli estivesse a chave do enigma.{13}
III
Com quanto eu seja um pouco preguiçoso em escrever, e ainda hontem lhe tenha enviado a segunda carta sobre o extraordinario caso das Victoreiras, não posso resistir á tentação de voltar hoje ao assumpto para lhe communicar que por carta recebida agora do correio do Porto fui ameaçado de não sei que medonhos perigos no caso de proseguir na veridica historia da morta ou viva.
Em nenhum acto da minha vida blasono de valente, mas tambem não é meu costume recuar por cobarde. Continuarei pois a narrativa encetada, em proveito da humanidade, porque, repetindo o que dizia na primeira carta, é uma tremenda lição. E depois que ideia se fará no Porto da policia de Castello de Paiva? Julgarão isto sertão de feras, serra deserta, região ignorada? Eu não sei. O que posso affirmar é que a tenebrosa carta nem me cheirou a{14} certidão d'obito, nem estou em terra onde a supradita carta, dado que eu fosse simplesmente poltrão, podesse converter-se em realidade impunementemente.