Não, meu amigo, eu protesto contra todas as mordaças açaimadoras de escandalos. Isto assim não póde ser,—que triumphe sempre o forte e soffra sempre o fraco. Bem sei que é costume recatar os escandalos e, quando muito, publical-os desfigurados. Mas—erro imperdoavel!—o escandalo é muitas vezes a lição e algumas vezes póde ser a cura. É preciso que se espalhe, que se discuta, que se commente, com vagar, como eu estou fazendo, para que a precipitação não cegue o entendimento.
Este caso da morta ou viva tem surprehendido muita gente, mesmo em Castello de Paiva. Era eu a unica pessoa que estava na confidencia d'elle, porque fui a unica testimunha occular. A principio julguei dever guardar segredo. Ao cabo, porém, de muitas noites de insomnia, resolvi dar-lhe publicidade. Sabido apenas por mim, não aproveitaria a ninguem; divulgado, algum proveito poderá levar á sociedade.
Ha que tempos se anda ahi a fallar da emancipação da mulher! Mentira, hypocrisia, infamia!
A sociedade lança mão da these-emancipação para mais escravisar a mulher, como os governos costumam exhibir o rotulo melhoramentos materiaes quando tentam vexar os povos com novos tributos.
Querem estes philosophos de má morte emendar a natureza. A mulher não nasceu para senhora nem para escrava; a mulher é companheira. Como esta palavra está a dizer, ella deve compartir comnosco alegrias e dores, risos e lagrimas, flores e espinhos. Fallar-lhe em emancipacão{15} é suppor que havemos sido despotas ao ponto de lhe roubarmos a liberdade relativa que lhe deviamos ter dado, e que lhe queremos restituir; é proclamar a nossa propria vileza; é arrogar-nos fatuamente a importancia de libertadores do genero humano. Escravisal-a é aviltar nossos filhos até á condição de filhos d'escrava e julgarmo-nos nós mesmos nas circumstancias de nossos filhos.
Não ha emancipação nem escravidão: o que deve haver simplesmente é sociedade conjugal.
Portanto eu, philosopho montanhez, estarei sempre na brecha para atacar qualquer das duas falsidades, qualquer dos dois extremos, que são viciosos, estando pois a virtude mais uma vez no meio-termo.
Estas cartas são um brado ardente contra o aviltamento da mulher, cuja honra se quer subjeitar a um capricho, esquecendo-nos de que deshonrando-a a ella nos deshonramos a nós mesmos. Não façamos da mulher a guitarra com que nos recreamos durante uma serenata e que ao romper do dia, ebrios de mau vinho e mau prazer, atiramos pela janella fóra. Quem a recolherá depois de a vêr no monturo? O trapeiro, apenas. E todavia a guitarra era mimosa, quando suspirava ao luar; tinha uma voz doce e melodiosa que despertava vagos pensamentos na alma; podia ainda murmurar cadencias se continuasse a ser dedilhada por mãos delicadas. Mas nós, que a principio mal poisavamos os dedos nas cordas, que a julgavamos intermedio entre a nossa alma e a natureza, porque era ella, a guitarra, que estava fallando por nós e respondendo pela natureza, deixamos por ultimo cahir em cheio a mão sobre o fragil instrumento e fizemos estalar uma corda, que precedeu o estalar de todas as outras.{16}
Pois a corda que estalou chamava-se—honra; depois d'ella estalaram todas as outras, que se podem chamar—pundonor, brio, fé. A mulher, quando chega a este destino da guitarra, já não tem pundonor, porque não se peja de haver cahido; não tem brio, porque não pensa em rehabilitar-se; não tem fé, porque já não acredita na propria rehabilitação nem na rehabilitação das outras.
Vai, como a guitarra partida, para o muladar do trapeiro ou para a loja do adello.