Não desgostei de vêr de perto a Pederneira, que eu ha annos escolhera para localisar ahi um pequeno[{20}] conto que, se me não engano, anda impresso no livro Homens e datas.
Alexandre Dumas pae diz algures que não podia descrever os logares sem que primeiro os visse. Creio que é n'um dos volumes das Causeries. Eu, para em nada me parecer, infelizmente, com Alexandre Dumas, affoutava-me a escolher logares de que algumas pessoas me haviam fallado com certo agrado, motivo por que me não ficavam desagradando tambem a mim.
Ora um d'esses logares fôra a Pederneira.
E a Pederneira lá estava com a sua egreja e com as suas casas, um pouco conforme ao que eu havia imaginado a seu respeito.
Mas já então se via no horisonte o planalto da Nazareth, a que chamam o Sitio, e nenhum rochedo avultava tanto, que eu pudesse desde logo gritar aos meus companheiros de viagem: «É aquelle!»
Havia effectivamente alguns rochedos alcandorados á borda do planalto, mas nenhum d'elles destacava por imminente ao mar, como nas estampas coloridas, que tantas vezes eu tinha, quando pequeno, contemplado em credula camaradagem com a velha criada Joanna, a minha velha e querida Joanna.
O que havia em baixo, mesmo por baixo dos rochedos, era a praia,—areia e casas.
Póde a praia ser muito boa para banhos, mas não[{21}] é para isso que eu quero as praias. Mais uma vez declararei que o meu ideal balnear não vae além da tina e da esponja. Gosto simplesmente das praias para vêr o mar; mas quero vel-o d'alto, que é a unica maneira que a gente tem de contemplar o oceano sem tamanho vexame para a pequenez humana...
É certo que na Nazareth poderia, para vêr o mar a meu modo, subir ao planalto, ao Sitio, como lá se diz.
Mas custa tanto subir na Nazareth da praia para o Sitio, emquanto o ascensor mechanico não estiver prompto, que é esse um prazer que mal se póde ter todos os dias, pelo incommodo que importa.