Um rochedo de papelão, suspenso sobre uma torrente de lona azul, apparecia recortando-se ao longe sobre o panno do fundo, que representava a vastidão infinita do ceu.

Um cavalleiro, tambem de papelão, galopava sobre um cavallo da mesma materia prima, em perseguição de um veado que não era mais consistente.

Cavallo e cavalleiro ficavam suspensos sobre o abysmo, e o veado despenhava-se no mar com grande applauso dos espectadores, que jubilavam catholicamente por vêr assim justamente castigado o diabo.

Quando outro dia fui das Caldas da Rainha á Nazareth, evoquei na minha memoria, que ainda não é das peiores, todo o apparato sobrenatural d'essa tradição piedosa, com que na infancia tantas vezes fui acalentado pela velha criada Joanna.

Não sabia eu então onde ficava a Nazareth do milagre, nem me era preciso sabel-o para o crêr.

O que eu a preceito sabia, e não precisava saber mais nada, era que o milagre acontecera, e que lá[{19}] estava ainda, onde quer que fosse, o rochedo pendente ao mar; e o vestigio sempre vivo de uma pata do cavallo.

Mais tarde a poesia de Castilho revestiu de prestigio, na minha imaginação, a tradição do milagre, e, finalmente, mais de um livro de Julio Cesar Machado, fallando das grandes festas dos cyrios da Nazareth, aguçara-me o apetite de ir um dia, quando podesse ser, ao local do milagre.

Fui. Não era pelo tempo dos cyrios, não havia portanto nem festas, nem romeiros, nem lôas, nem offerendas. Nada d'isso. Mas o que eu esperava que houvesse, n'aquelle dia de agosto em que fui á Nazareth, era o rochedo em cima e o mar em baixo. Isso me bastaria para que eu, encontrando todos os pormenores da tradição em inteira conformidade com as minhas recordações, continuasse a acreditar no milagre com o mesmo prestigio e com a mesma fé.

Fui, com estimaveis companheiros de viagem, que n'esse dia eram tres.

E, não devo occultal-o por vergonha, á medida que da estação do Vallado avançava para a Nazareth, o meu coração não trotava menos do que as miseras pilecas que iam arrastando o char-á-bancs.