No momento do perigo, Sarah, que guiava o break, saltou da almofada, poz-se á frente dos cavallos, segurou-os pelos freios, e... suspendeu-os no azul, sobre a torrente...

É tragico!

Póde muita gente lançar este caso á conta das numerosas blagues que o noticiario francez borda todos os dias phantasiosamente em torno do nome de Sarah Bernhardt.

Mas, por muito grande que seja a incredulidade d'essa gente, o caso da ponte de Renquez não me quer parecer menos verosimil do que se me affigurou outro dia a historia do milagre da Nazareth.

Eu, como toda a gente, fui educado a ouvir fallar do milagre da Nazareth, e a vel-o memorado em estampas coloridas, embora grosseiras, que figuram D. Fuas Roupinho, de capinha de tenor e bonnet de penna de gallo, montando um cavallo branco, que,[{17}] de mãos no ar, se empinava sobre um rochedo imminente ao oceano, o qual oceano fremia em vagalhões, hyante e profundo.

Um veado, de larga armação ramosa, saltava pelo ar, prestes a afundar-se, o qual veado era nem mais nem menos que o diabo.

Nossa Senhora da Nazareth, envolta em resplendores celestes, apparecia no espaço, acudindo solicita á invocação do cavalleiro, o qual cavalleiro era, como já dissemos, D. Fuas Roupinho.

Pessoas que leram os Quadros historicos de Castilho, e n'elle o rimance da Nazareth, sabiam, além d'aquillo, que este caso milagroso occorrera n'uma fresca manhã de setembro, e que o rochedo do milagre estava pendurado sobre o oceano na altura de duzentas braças.

Rompeu-se com o sol a nevoa,
E ao resplendor que luziu,
Sobre penha, que duzentas
Braças pende ao mar se viu
Co'as mãos em vão sobre o abysmo,
Trepidar e descair,
Ennovelar-se erriçado.
Pular atraz, refugir[{18}]
Um cavallo! e o bom Dom Fuas,
Que o remessára até ali,
Saltar por terra, clamando:
—«Por ti, Senhora, é por ti!»

O milagre da Nazareth fôra posto em oratoria no theatro.