Desconfiado, parti logo do principio de que Fuas Roupinho se não tinha deixado engodar tão tolamente pelo diabo, n'aquelle sitio, como a lenda dizia.
O rochedo, visto de cima como visto de baixo, continuou a não me dar a impressão do milagre. Vi um signal na pedra, e um rapazito disse-me que era o vestigio de uma das patas do cavallo.
Confesso que me fizera maior impressão,—muito maior!—a cruz de pedra que Santo Antonio, tambem segundo a lenda, riscára com a unha na sé de Lisboa, quando era menino do côro, e o diabo lhe appareceu feito mulher.
—Sim—disse eu quando vi a cruz na sé—devia ser isso... para um santo que quizesse resistir!
Mas na Nazareth, espreitando para o rochedo por cima de um muro que me dava pelos hombros, nenhuma voz disse dentro em mim:[{24}]
—Sim... é o signal da pata do cavallo. Devia ser assim para um cavallo... que não quizesse cahir!
E a historia do milagre galopava no meu espirito para o abysmo da incredulidade, como o cavallo de D. Fuas Roupinho, na lenda, para o abysmo do oceano.
Mas entrei na egreja, doirada de bella obra de talha, vi a imagem de Nossa Senhora no throno, fixei por alguns momentos a sua rude esculptura, e pareceu-me que bem podia ter sido tudo como a lenda contava...
Quando o homem está de joelhos, sente-se sempre menos propenso á duvida...
Quando voltei ás Caldas, disse a Julio Cesar Machado, que estava lá: