—Olha que tu, com os teus livros, tiveste muita culpa n'esta passeiata que eu fiz hoje á Nazareth. Não gostei...

E elle respondeu-me:

—Aquillo é muito bom quando é pelo tempo dos cyrios e pelo tempo... dos dezoito annos, que foi quando eu vi bem os cyrios...[{25}]

CHRONICAS DE VIAGEM

III

Alcobaça

Quando eu escrevi a Porta do Paraiso, que tão boa fortuna alcançou, como prova o facto de estar hoje em terceira edição, foi na villa de Alcobaça, á sombra do vetusto mosteiro cisterciense, que localisei o principio da novella, a qual depois se desdobra em Lisboa.

Clarinha era d'ali, d'Alcobaça, de cujos vergeis floridos eu fallei sem os ter visto. Foi em Alcobaça que lhe desabrochou no coração o primeiro amor, primeiro e unico de toda a sua vida, o que já então era raro e hoje é rarissimo. Eu não tinha visto os coutos pittorescos de Alcobaça, abundantes de fructas e aguas, de sombras e frescura, mas conhecia-os pela Alcobaça illustrada de Frei Manuel dos Anjos e pela descripção[{26}] oral, muitas vezes repetida, sempre calorosamente, de um rapaz que era d'ali natural e estava desempenhando no Porto o cargo de guarda-livros da Companhia Viação, a Entre-Paredes.

Ha quinze annos eu conhecia pouco o paiz: um bocado do Minho, outro bocado do Douro, e mais nada. O scenario de que podia dispôr era, pois, muito resumido, acanhado. Depois d'isso é que me pude dar o prazer de touriste, e hoje, com excepção do Algarve, conheço menos mal o paiz. A paizagem agreste do Douro abundava já nos meus primeiros livros, de modo que, posto curasse por informações, foi por amor da variedade que eu desferi vôo para Alcobaça a fim de pendurar nos seus arvoredos a minha novella, como um ninho de tristezas brandas, que a minha imaginação, timida andorinha, se propunha fabricar...

Quando se abre o livro, está-se em Alcobaça; assiste-se a um serão de Clarinha: o tio a um lado, a outro lado o primo revolvendo livros.