A planicie verdejante do Vallado, essa immensa campina plana como a palma da mão,—propriedade do snr. Manuel Iglesias,—era para mim o bello prologo da viagem a Alcobaça pela linha da Figueira.

O Vallado é realmente um sitio delicioso, vasto, lavado de um puro ar saudavelmente temperado com o oxygenio dos campos e o iodo do mar, que não fica longe. Principia ahi o grande pinhal de Leiria; uma guarda avançada de bastos pinheiros faz sentinella ao chalet encarnado onde reside um fiscal da matta. Ao longe, dominando a estrada da Nazareth, o morro de S. Bartholomeu, phantasiosamente recortado, com a sua ermidinha entalada entre rochedos, parece olhar desdenhosamente para a planicie infinita que se lhe desenrola aos pés, timidamente, longamente...

Do Vallado para Alcobaça ha diligencias, a tostão por pessoa. É preciso deixar passar o comboio para podermos atravessar a linha. Esperam-se cinco minutos, o comboio parte, e a diligencia do Gallinha parte logo depois do comboio.

A estrada é graciosa, alegre como um sorriso luminoso da natureza, feito de claridade e de verdura. A breve trecho estamos na Fervença, cujo nome provém[a]{29}] das suas aguas sulphurosas, e onde um velho portico de propriedade nobre me enleiaria o olhar, se não tivesse de voltar-me logo para vêr o edificio da fabrica de fiação e tecidos, estabelecida alli em 1874.

Sombras, frescura, agua, a flux,—uma estrada que mais parece uma avenida de recreio cortada atravez de uma floresta banhada por nascentes abundantes.

Avista-se Maiorga, avistam-se casaes alvejantes, frescos e claros, brilhando na palpitação suave da verdura, levemente batida por uma pontinha de ar refrigerante. A agua corre nos campos, em ondas de abundancia, entornando diamantes ao saltar de pedra em pedra, como uma princeza louca, que vae estragando thesouros. E o arvoredo põe no solo branco e crú grandes manchas de sombra, que parecem ligar-se caprichosamente pelos seus contornos irregulares, phantasticos.

Surge-nos á margem da estrada outra fabrica, de louça, dando-nos a conhecer que vamos entrando n'um concelho vitalisado pela industria, laborioso e rico. Depois as primeiras casas da povoação, brancas e baixas, enfileiram-se em linha, correndo a par da diligencia, e um palacio, dominador e vasto, abre á luz sobre a estrada as suas janellas em longas series parallelamente dispostas.

Vejo, de relance, sobre um cunhal de muro o letreiro[{30}] que diz: Rua de Frei Fortunato. E penso n'este nome. Emquanto a diligencia roda, lembro-me que aquella rua memorará frei Fortunato de S. Boaventura, alcobacense, miguelista acerrimo, polygrapho fecundo, author da Historia chronologica e critica da real abbadia de Alcobaça. E d'ahi talvez não seja; mas aposto que será esse mesmo, o de S. Boaventura.

A diligencia entra n'um triumpho de estrondo e poeira—egual a todos os outros triumphos—no Rocio de Alcobaça, e á nossa esquerda, como um leviathan de pedra, ferido pelo arpéo do vandalismo, o mosteiro avulta na sua vastidão enorme, fria e dura, remendado, propinado, cuspido na face vetusta pela antiguidade e pelo progresso.

A egreja, encravada no mosteiro, exhibe n'uma confusão chaotica os seus numerosos estylos architetonicos, especie de bric-á-brac de todas as grandezas de um passado extincto, e por entre as pedras e as imagens que negrejam como carvões contrastam remendos de cartão branco, farrapos de pedra nova, fazendo lembrar uma capa de pedinte pendurada do alto das torres, e aberta ao sol.