Imaginem que visitando um dia a feira da ladra se recordaram subitamente de D. Affonso Henriques ao vêr um capacete de armadura posto sobre uma farda de soldado da guarda municipal.[{31}]
Foi o que me aconteceu.
D. Affonso Henriques passou por ali, e plantou um mosteiro. Mas veio depois a invasão de Miramolim, e derrubou-o. Poz-se uma estaca á arvore partida, e a arvore renasceu. Vieram ainda depois os caprichos realengos, os accrescentos anachronicos, os terremotos, os raios, e D. Affonso Henriques, se voltasse a este mundo, não conheceria a sua bella arvore de pedra, plantada em honra de Nossa Senhora, por memoria do feito de Santarem.
Aberta a porta do templo, talhada em arcos ogivaes, as suas vastas tres naves alongam-se n'uma fria extensão silenciosa, e ao fundo a capella mór, em semi-circulo como todas as charolas das grandes basilicas, esfuma-se n'um como nevoeiro, que duvidosamente deixa entrever columnas e imagens.
Á esquerda, uma porta abre sobre a chamada casa dos reis, que se nos patentêa com os seus altos azulejos allegoricos, o seu caldeirão bojudo de Aljubarrota e as suas estatuas grotescas, de reis antigos, presididas por Affonso Henriques, recebendo a corôa, curvado aos pés de S. Bernardo, essa montanha de santidade, como lhe chamou frei Luiz de Souza.
Á ilharga de Affonso Henriques, n'uma prateleira, um pequeno busto, em gesso, de D. Pedro V, põe n'essa galeria de antigas estatuas de reis, modeladas[{32}] ao natural, uma nota acre do contraste moderno, mostrando como os reis teem ido perdendo na grandeza da sua exhibição...
Tudo o que em Alcobaça é moderno, é atroz: especialmente o vandalismo.
É verdade que os francezes roubaram todas as alfaias valiosas do mosteiro; que abriram sacrilegamente os tumulos de D. Pedro e de D. Ignez, para arrancar aos cadaveres as suas ricas vestes reaes; mas, em nome da liberdade, os indigenas foram depois roubando, a exemplo dos francezes, as reliquias e as pedras, indifferentemente, os santos e as cantarias; a verdade é que os governos do fim do seculo não são menos vandalos do que os francezes do principio d'elle, porque não tardará muito, talvez, que toda a abobada do templo, já fendida, desabe.
Aquelles dois tumulos que, entre outros, se encontram n'uma capella do cruzeiro, estão immensamente divulgados pela photographia, pela gravura, pela poesia, mas hão de ser eternamente o assombro de quem visitar Alcobaça, porque tudo n'elles é grandioso e sublime, desde o mais subtil pormenor dos arabescos até ao doce perfume de amor que parece exhalar-se desses dois sarcophagos, como do calix de dois lyrios brancos sempre frescos...[{33}]