IV

Os tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro

Aqui temos pois deante de nós, como dois lyrios brancos de marmore, os sarcophagos de que parece exhalar-se, como um perfume fugitivo, a lenda medieval d'essa grande catastrophe amorosa.

Da historia d'esses tragicos amores pouco se sabe ao certo, mas a lenda embala a nossa imaginação desde os primeiros annos da infancia; todos a conhecemos, e todos a acreditamos.

Sabemos o que nos disse Camões, que copiou a tradição legada por Garcia de Rezende, servindo-se ás vezes das mesmas phrases. E, verdade verdade, n'este moribundo seculo de reconstrucções historicas, nenhum documento que fizesse luz e que fizesse fé[{34}] veio a lume para esclarecer a tradição dos amores de Ignez de Castro.

Camillo Castello Branco tem na sua pasta, recolhidos e colleccionados, materiaes importantes, que farão revelações de alto valor sobre esta nublosa questão historica; mas, infelizmente, não poude ainda dispôl-os, ligal-os, conglobal-os n'um livro, que deverá causar sensação quando apparecer.

Todos temos caminhado até hoje ao capricho das incertezas da lenda, que ora faz de Ignez de Castro um caracter perfido, ora um caracter angelico, segundo a lenda é recolhida n'esta ou n'aquella provincia.

Nem a propria individualidade de Ignez de Castro está fixada ainda historicamente; e os pormenores dos seus amores com o infante D. Pedro, depois rei de Portugal, envolvem-se n'uma especie de via-láctea romantica, de veu poetico atravez do qual não foi possivel ainda descortinar com segurança a verdade.

Mas seja qual for a historia d'esses pormenores, qualquer que venha a ser a liquidação definitiva d'esse acontecimento historico, o que não póde pôr-se em duvida, deante dos dois sarcophagos de Alcobaça, é que houve n'esses amores todo um idyllio de sublime poesia do coração, todo um drama vibrante de sentimento, poetico e grandioso.[{35}]

Seria preciso que no animo duro de um tal homem como D. Pedro I houvessem cantado e raivado todas as doçuras e todos os desesperos do amor para que elle phantasiasse a fabrica delicadissima d'esses dois tumulos tão similhantes nos traços geraes da sua tonalidade artistica, e tão irmãos na homogeneidade da expressão sentimental que a pedra conserva ainda atravez dos tempos.