Foi elle que planeou a construcção d'esses dois sarcophagos, diz a tradição, e que para um d'elles ordenou fosse removido desde Coimbra o cadaver de Ignez, ficando o outro vazio, á espera que soasse a hora de o ir povoar na solidão eterna da morte...

Assim devia ter sido; assim foi decerto. Dil-o a pedra dos sarcophagos mais eloquentemente do que as chronicas. Só o amor poderia ter inspirado a concepção d'esses dois tumulos monumentaes; só um fino amante, como se diz fôra D. Pedro, poderia ter mandado fabricar esses dois leitos de marmore para um noivado infinito, insaciavel.

Houve no espirito de D. Pedro uma preoccupação dominante, que elle fez comprehender ao esculptor: que a posteridade visse bem n'essa figura de mulher, lavrada a vulto sobre o sarcophago, uma rainha posthuma, e um anjo torturado. A corôa, o manto, as armas reaes de Portugal testemunham claramente[{36}] que jaz ali uma princeza em toda a pompa funebre da magestade real. Os anjos, ronflando as azas, de joelhos, e sustentando as almofadas de marmore sobre as quaes a cabeça de Ignez repousa, deixam comprehender que essas duas creanças aladas estão alli acarinhando uma irmã que passou pelo mundo soffrendo, e que partiu sorrindo...

Aos pés de Ignez, enroscado n'uma indolencia amortecida, um lebreu, symbolo da lealdade, representa como que a firmeza d'esse amor inconsolavel, a constancia d'essa dedicação heroica, parecendo chorar em silencio, na tristeza de uma grande dôr, como se fosse o proprio coração de D. Pedro.

Nenhum outro symbolo teria ali logar mais proprio nem mais exacta representação. O que esse pensativo lebreu exprime não o poderia dizer nenhum poema, nenhum epitaphio. É por isso que o symbolo se repete no tumulo de D. Pedro: bellamente esculpturado, um grande cão de marmore vigia atravez da eternidade aos pés do rei amante, como para significar que o seu amor sobreviveria ao aniquilamento do coração, quando o cadaver do rei baixasse a descançar n'aquelle seu ultimo leito.

A luz triste, coada atravez da verdura das arvores, que entra na capella, põe uma nota de doce e delicada melancholia no ar silencioso; e em torno dos[{37}] dois sarcophagos alguns tumulos de reis e infantes affiguram-se nos mesquinhos, e como que perdidos na irradiação absorvente d'aquelle poema de amor, feito de dois blocos de marmore, que o espaço separa, mas que o pensamento une.

Depois da visita aos tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro sente a gente que nenhuma outra commoção poderá brotar dentro das paredes do templo ou do mosteiro. A casa das reliquias, que aliás brilham pela sua ausencia, o claustro, a farrapagem hybrida de remendos architectonicos que no edificio se atropellam e baralham, a vastidão glacial dos pavimentos e das paredes, o latim barbaro dos epitaphios, as largas fendas que por toda a parte ameaçam ruina imminente, todo esse espectaculo ao mesmo passo apparatoso e maltrapido de um monumento que se desconjunta, não consegue apagar no nosso espirito a impressão dolente que nos deixaram os dois tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro e que continúa soluçando no nosso coração como o murmurio de uma fonte ou o rythmo de uma elegia.

O que está em volta de nós é já uma coisa muito differente, é a devastação do antigo pela invasão do moderno, é o mosteiro convertido em quartel, em tribunal, em escola, em habitação particular, é o vaso[{38}] de barro, aqui fendido, ali modernisado, mas todo elle profanado, que contém ainda dentro em si dois lyrios brancos de marmore, que guardam nos seus calices rendilhados o aroma subtil de uma grande paixão antiga.

Tirassem de Alcobaça esses dois sarcophagos, e não valeria a pena lá ir.

O que falta n'esse colosso de pedra que se chama o convento de Mafra, para de algum modo o vitalisar na sua inutilidade monumental, para lhe dar uma pulsação, um toque de vida, uma scentelha de espiritualidade, é um poema de amor como aquelle que se perpetua sob as abobadas rôtas do templo de Alcobaça, salvando-o do esquecimento.