Nenhuma brisa refrigerante de sentimento, de poesia, de nobreza immaterial passa por aquella aridez pesada de Mafra para suavisal-a um pouco. Tudo ali é frio como o coração de D. João V, resistente como a sua voluptuosidade nunca farta, dispendioso como a enormidade dos seus caprichos egoistas, pessoaes...
A Alcobaça aconteceria a mesma coisa, porque o edificio é no tom geral da sua architetura tão carregado e monótono como o de Mafra, se não tivesse a espiritualizal-o esse romance cavalheiresco que se encerra nos dois tumulos da capella de S. Vicente, e[{39}] que atravessa o nosso espirito como uma onda de éther, elevando-se para as alturas.
Do mais que eu vi em Alcobaça, na egreja e no mosteiro, não vale a pena fallar.
Ha muita gente que se encanta vendo a cozinha, onde bois inteiros podiam ser assados, sem que os cozinheiros corressem o risco de acotovellar-se, e onde a agua corria de numerosas torneiras cahindo sobre bellos tanques de marmore n'uma abundancia torrencial, diluviosa.
Francamente, só de alongar os olhos pela cosinha de Alcobaça me senti enjoado, indigesto, como se estivesse a olhar para uma grande escudella de orelheira com feijão branco.
Todas as materialidades fradescas do mosteiro passaram sem relevo pelo meu espirito, perdendo-se na vulgar noção de egoismo e opulencia que caracterisavam por toda a parte certas ordens monasticas.
Sahindo do mosteiro, onde o cheiro a bolôr é acre e irritante, banhei os pulmões com delicia na frescura oxigenada que se exhala do arvoredo dos antigos coutos, onde a agua canta pagãmente o velho poema mythologico da Mãe-Terra, Alma-Mater, fonte perenne de abundancia, rasgando eternamente o seio fecundo para alimentar os filhos ephemeros.[{40}]
E uma hora depois, dentro da diligencia do Gallinha, que rodava para a estação do Vallado, vinha eu dizendo ao meu bom amigo Carrilho:
—Mas que diabo de auctoridade temos nós para queixarmo-nos do vandalismo dos francezes, se ainda somos mais vandalos do que elles?!...[{41}]