Quarenta e oito horas depois de eu ter chegado ás Caldas da Rainha, um amigo meu, acompanhado por outro cavalheiro, ia a balbuciar algumas palavras de apresentação, quando esse outro cavalheiro, para mim desconhecido, o interrompeu dizendo:

—Nós somos amigos desde creanças: Eu sou o Padre Antonio das Caldas. Teriamos nós dez para onze annos quando nos encontrámos pela primeira vez, na Foz do Douro, em casa de Joaquim Corrêa de Oliveira, de S. Pedro do Sul. Lembra-se? Nunca mais me esqueceu a sua physionomia. Vi-o uma vez em Lisboa, em S. Bento, e você acabava de sahir justamente no momento em que eu o ia procurar. Dê cá os seus ossos.

Encantado com a surpreza, dei-lhe os meus ossos, e a minha amisade. Uma hora depois, estávamos de pedra e cal,—para a vida e para a morte.

Padre Antonio, com ser das Caldas, vive em Obidos, onde tem capellania.

Sabendo isto, fallei-lhe logo de Obidos e dos quadros da celebre Josepha de Ayalla, que eu desejaria vêr.

Padre Antonio respondeu:[{43}]

—Isso arranja-se. Você vae almoçar comigo um dia d'estes, e eu mostro-lhe Obidos de fond en comble.

E como eu hesitasse, acrescentou:

—Sim, snr. Você vae almoçar comigo e eu dar-lhe-hei para almoçar a vacca e riso de frei Bartholomeu dos Martyres. Serve-lhe?

—Serve-me que apenas me mande servir a supradita vacca e o sobredito riso do sobredito arcebispo. N'essas condições, acceito.