A manhã estava serena, como se dizia nos romances antigos. A neblina matinal levantava vôo do alto dos montes, como se fosse um bando de aves transparentes, de grandes azas abertas. E dos campos vinha esse cheiro sadio a ervas verdes e viçosas, que faz a delicia dos pulmões. A estrada é excellente, se bem que nem sempre plana. Obidos fica muito elevada, dentro das ruinas do seu famoso castello: a estrada sóbe colleando como uma serpente.[{45}]
Avistava-se já a muralha do castello, que era enorme, rota em muitos lanços, alguns dos quaes escancaravam para o azul da manhã a sua hyante goella de pedra.
Horisontalmente, desenhavam-se, ao longe, os arcos do extenso aqueducto de Obidos, atravez dos quaes a luz passava como n'uma vista de scenographia.
E em baixo, á beira da estrada que iamos seguindo, cada vez se avisinhava mais de nós a egreja do Senhor da Pedra, denunciando logo na sua construcção a mão dadivosa de D. João V.
E o nosso apetite, espicaçado pela agua das Caldas, ia cantando gloria antecipada em honra do almoço de Padre Antonio.
Não era assim, Carrilho?
Entrámos a velha porta do castello, que conserva o seu feitio antigo.
E logo o estrondo do trem attrahiu ás janellas dos predios, arrimados contra a muralha ou encravados n'ella, caras curiosas, petrificadas de surpreza, justificada surpresa n'aquella solidão montanhosa, que raros touristes visitam, áquella hora, especialmente.
O nosso trem parou um pouco ao acaso. E nós dissemos ás caras das janellas e ás caras das portas que iamos alli sobrescriptados para o snr. Padre Antonio.[{46}]
Então uma voz, cahindo do alto de uma janella, disse: