Josepha de Obidos tem decerto defeitos como artista. Mas as cabeças das figuras dos seus quadros estão, por via de regra, excellentemente tratadas. Era uma habil retratista, que sabia tocar as physionomias com grande verdade e expressão.

Áquella hora, a luz não nos ajudava muito; a melhor hora, disse-nos depois Padre Antonio, seria o meio dia. Ainda assim, estudamos os quadros durante longo tempo.

Uma mulher que estava rezando, levantou-se para dizer-nos:

—Quem sabe explicar tudo isto é o snr. Padre Antonio, mas elle foi caçar perdizes para uns hospedes, que talvez sejam os senhores.

Que sim, que eramos nós; e que as perdizes e Padre Antonio já iam tardando... todos.

—E aquelle tumulo? De quem será aquelle bello tumulo, de tão primorosos ornatos, que alli está mettido na parede?

A beata:

—Que o snr. Padre Antonio, quando viesse com as perdizes, explicaria tudo cabalmente.[{48}]

E então, n'um reccanto do templo, dentro de um caixãosinho de madeira, deposto sobre um banco, vi o cadaver de uma creança, os braços magrinhos encruzados, um lenço branco sobre o rosto, flores aos pés e no vestido.

O cadaver do uma creança! Pois póde haver nada mais triste do que o espectaculo d'uma creança morta?! Que se morra cançado da vida, vá. Mas fazer palpitar tres corações, os dos paes e o do filho, para ferir todos tres de um só golpe, chegaria a ser cruel, se Deus não fosse infinitamente bom!...