—Aquelle logar chama-se assim; aquelle monte chama-se assado. Acolá era a Quinta das Flores, para regalo das rainhas. Aqui, n'este mesmo sitio, esteve a Senhora D. Maria Pia de Saboya. Eu vinha da caça tambem com o meu fato de caçador, ainda a pensar nas perdizes. E chamaram-me cá de cima: era o Pindella. Que sua magestade queria fallar-me. Tudo menos[{50}] isso: estou em fato do caçador. Que assim mesmo havia de ser. E foi... Olhe lá: Vê aquelle azul, além? É a lagôa. Você já foi á Foz do Arelho? Pois eu vou ámanhã para lá. Morro por aquillo; gosto de estar só na Foz. Faço-me pescador, e gosto! Nem já me lembro das Caldas. A Foz é melhor, por que eu na Foz sou selvagem: vivo na natureza. Ora, com a breca! as perdizes já devem estar promptas... Vamos lá almoçar... Ó Pimentel, tome cuidado; veja que não caia. A rainha subiu e desceu intrepidamente; não cahiu... Com molho de villão as perdizes não devem estar más.. Vão sendo horas. Até já os cães querem almoçar!...
Padre Antonio vive na unica hospedaria que ha em Obidos, e foi ahi que nos offereceu, não o promettido almoço de frei Bartholomeu dos Martyres, mas um banquete de Lucullo.
A cada prato que ia chegando, eu e Carrilho protestavamos. O medico da villa, que tambem estava á mesa, ria-se. Padre Antonio procurava atabafar os nossos protestos fallando insistentemente de coisas d'Obidos:
—Na Misericordia, aonde logo havemos de ir, tambem ha quadros da Josepha... Que o Malhão, o grande prégador, era d'alli. Na familia Malhão havia, além do pregador, outro homem de letras.[{51}]
E levantou-se, foi buscar um livro: Vida e feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Lisboa, 1794.
Serviam-nos n'esse momento magnificos linguados fritos.
—Se eu sabia a lenda romantica da capellinha da Porta de Nossa Senhora da Graça? Historia de uns amores infelizes.
Serviam-nos vitella de fricassé.
—Que no dia seguinte tinha que prégar nas Caldas...
E o medico: