D. Serafina não se dava por convencida. Influencia politica tambem o Barros tinha na Mealhada: que se lembrasse elle das cartas que o bispo de Vizeu lhe escrevia sempre que havia eleições, tratando-o mano a mano quando lhe pedia votos: meu Barros lá, meu Barros cá. Fosse o Barros mais esperto e soubesse explorar em proveito da mulher a sua importancia politica. Mas era um asno. O snr. D. Antonio ia todos os annos tomar banhos para Espinho; sempre que o Barros chegava, o snr. D. Antonio ia-o visitar de varapau na mão. Ora dissesse-lhe o Barros que só lhe tornaria a dar os votos se lhe arranjasse par para a mulher dançar na assembléa, e o snr. D. Antonio faria com que todo o partido reformista, que estivesse em Espinho, fosse dançar com ella.
—Ó mulher! replicava o Barros. Isso póde lá[{72}] fazer-se! Isso é lá coisa que se faça! Tu não sabes o que estás a dizer!
—Sei muito bem o que digo; sempre soube. Isto de eleições é um negocio para aquelles que não são tolos como tu. Tanto faz pedir uma commenda como uma quadrilha. Acaso será maior vergonha pedir para arranjar um par do que um emprego? Só elle, um pedaço d'asno, dava os seus votos de graça! Nem commendador era ainda!
O Barros procurava acalmal-a:
—Que o snr. D. Antonio não era homem a quem se pedissem commendas. Ria-se d'isso.
Mas Serafina não se calava nunca por falta de argumentos:
—Ah! o snr. D. Antonio ria-se d'isso! mas elle proprio quizera ser bispo, que era uma especie de commendador da egreja ou mais ainda!
N'estas discussões domesticas sobre a eterna questão da dança, era sempre Serafina que ficava victoriosa. O Barros reconhecia n'ella superioridade de raciocinio, força de logica. Cada pessoa, pensava elle, tem pelo menos um defeito. Ora as mulheres, quando são espertas, ainda que tenham o seu defeito, sabem sempre desculpal-o. O homem tem a força do pulso; a mulher tem a força do argumento. O homem póde bater na mulher, mas acaba por ser batido por ella,—logicamente.[{73}] E o defeito da Fininha, o seu gosto pela dança, não era d'aquelles defeitos que compromettem a honra dos maridos. A mulher do Barradas d'Esmoriz, essa sim, servia-se da dança para chegar a certos fins illegitimos. Mas a Fininha gostava da dança pela dança,—sem segundas vistas.
E a Fininha, a respeito da mulher do Barradas, dizia-lhe muitas vezes:
—O que eu vejo é que as que se portam peior não ficam nunca sentadas!