—Por isso mesmo... respondia o Barros.
—Por isso mesmo!? Então na sociedade todas as distincções devem ser para quem menos as merece!? Que premio destinam então os homens ás mulheres honestas?!
O Barros embuchava.
—Lá está o raio da logica!... pensava elle.
—Sim, que visse, que reparasse, continuava Serafina. Ao passo que ella passava noites inteiras sem dançar, tendo a consciencia de ser uma esposa virtuosa, a Barradas andava sempre n'uma roda viva, e a filha do Saraiva de Mogofores, que fugira com um quintanista de direito para o Bussaco, e estivera lá dois dias com elle, não chegava para as encommendas na assembléa de Espinho. Elle Barros bem sabia que a sua Fina, quando casou, tanto podia ir para o[{74}] ceu como para o leito conjugal, porque não se podia ser mais donzella; e depois que casou, nunca ninguem se atrevera com ella, nem mesmo o escrivão de fazenda, que era baboso por mulheres.
E isto era exacto. A honradez de Serafina tinha duas muralhas que a defendiam: a virtude e a fealdade. Trigueira, ossuda, com as sobrancelhas espêssas e um buço de adolescente, fazia lembrar uma cigana. Como as ciganas, gostava das côres vivas, tapageuses. Dançando, saracoteava os quadris, rebolia-se, peneirando sobre o pavimento uns passinhos curtos, miudos e travados. As outras riam-se d'aquella quarentona amulatada, toda perliquiteta, que na dança tirava a vez ás meninas solteiras. O proprio Barros algumas vezes ouvia estes remoques, e em casa, timidamente, com um grande medo da Serafina e da logica, dizia-lh'o.
Ella replicava:
—Deixa-as rir: é inveja. Muitas vezes me disse o papá que eu, se não fosse tão alta, era tal e qual a snr.ª D. Carlota Joaquina.
—Salvo seja!... acudia o Barros.
—Nas feições, homem de Deus. E no meio da casa não me troco por nenhuma d'essas lambisgoias de vinte annos, que não foram ainda capazes de aprender as marcas dos Lanceiros!