Mas um anno, em Espinho, fez-se uma terrivel[{75}] conspiração contra D. Serafina: meninas e meninos de vinte annos combinaram entre si empregar esforços para que a cigana da Mealhada não tornasse a dançar; um rapaz do Porto, a quem ella disse uma vez—Sempre mostra que é tripeiro!—foi o chefe da conspiração.

A coisa chegou a ponto de que n'uma noite de menor concorrencia, n'uma quadrilha franceza, dançaram com perna de pau, indo o par marcante fazer coté, tendo Serafina ficado sentada e estando disponivel um caloiro de Coimbra.

Serafina jurou aos seus deuses não voltar mais a Espinho; e no anno seguinte o Barros levou-a á Figueira da Foz.

Mas na Figueira havia grande numero de hespanholas e de portuguezas novas, que dançavam sempre. Serafina estava fula, e um dia fez com que o marido se entendesse com um dos directores do Club, o Peres, de Leiria.

—V. ex.ª, disse-lhe o Barros, na sua qualidade do director deve zelar igualmente os direitos de todos os socios. Ora a verdade é que minha mulher, que gosta de dançar, não tem dançado nunca, ao passo que outras senhoras, que pagaram quota igual, andam n'um sarilho continuo. Peço, em nome da justiça, providencias a v. ex.ª[{76}]

O Peres era reformista, sabia que o Barros pesava na eleição da Mealhada; não o quiz desgostar.

—Que sim. Que elle não dançava, mas que havia de fallar aos rapazes, e de os apresentar á snr.ª D. Serafina.

Mas o Peres nada poude conseguir dos rapazes: que não, que lá esse sacrificio não faziam elles. Que a D. Serafina era um monstro indançavel.

Muito entalado, o Peres já estava resolvido a perpetrar rheumaticamente uma quadrilha, quando passou na Figueira um destacamento, cujo capitão fôra antigo condiscipulo do Peres.

O capitão Lamprêa, de botas empoeiradas e barretina no braço, disse ao Peres que ia reinar um bocado, porque tinha bebido bem ao jantar; que o apresentasse a uma dama.