Os hespanhoes vão mandando os seus primeiros contingentes, e d'aqui a poucos dias chegará o grosso do exercito.
Principia a ouvir-se já esse infatigavel chalrar das hespanholas, que ao longo da alameda vão agitando a ventarola e... os quadris, passando como um bando de cigarras palreiras, seguidas de grande numero de cigarrinhas não menos garrulas do que as suas mamãs de olhos pretos e os seus papás de patillas.[{8}]
Muitas caras de Lisboa: pessoas da alta finança... com dyspepsia; e da grande roda... com rheumatismo.
Algumas pessoas da provincia, com ar de principes que viajam sob incognito.
Toda esta humanidade, mais ou menos espectaculosa, que passeia no Olympo da alameda, de tridente na mão, desce do alto da sua importancia ao razo da fragilidade do barro commum, logo que entra as portas da Copa.
Ahi, perante as aguas, são todos eguaes.
Portuguezas de chapeus de palha, hespanholas de mantilha, janotas do Chiado, anciãos venerandos, sentados em torno da casa das pulverisações, voltados contra a parede, de bocca escancarada, n'uma immobilidade paciente, deixam penetrar na garganta, em pequenissimas gottas de agua do tamanho de missangas, a aspersão d'esse hyssope therapeutico, que os ha de benzer... para o inverno.
Vêl-os alli e imaginal-os devotos romeiros que estão collando os seus labios a uma nascente milagrosa de agua de Lourdes, é tudo uma e a mesma coisa. Reverentes deante da torneira, de bibe de borracha em volta do pescoço e toalha de algodão sobre os joelhos, parece entoarem mentalmente um hymno védico em honra e louvor da agua das Caldas: «Gloria a ti nas torneiras, ó milagrosa agua, que borrifas[{9}] a minha garganta, desces pelo meu esophago, penetras no meu corpo! Abençoada sejas tu e mais os sagrados Pintos Coelhos da medicina, que mandam que a gente te sorva em pequenas doses, tal qual como em Lisboa!»
Mas, feita esta oração naturalistica, as damas, os janotas, os anciãos arremessam com desdem o seu bibe de borracha, sacodem a toalha de algodão, e readquirem, á sahida da Copa, o seu bello ar mundano, parecendo dizer aos platanos da Alameda: «No reino animal, a que temos a honra de pertencer, não somos nada inferiores a vós outros, senhores ornamentos do reino vegetal!»
E as andorinhas, que nas Caldas são em numero prodigioso, esvoaçando de platano para platano parece dizerem lá de cima: «Como v. ex.ª está fresco com as aguas! Viva v. ex.ª, e não falte cá para o anno!»