Deante do Sebastião, que ministra os copinhos de agua das Caldas com a mesma gravidade com que Ganimedes devia servir Jupiter á mesa dos deuses, toda a gente tem um vago estremecimento do espirito, seja porque o Sebastião represente a saude ou a diplomacia, pois que realmente a saude é a diplomacia com que a gente quer tratar o corpo, e a diplomacia é a saude com que as nações pretendem curar as suas mazellas.[{10}]

É talvez por esta dupla representação que o Sebastião da Copa tem um certo ar solemne, ao mesmo tempo de medico e de diplomata, não sendo elle nada d'isso.

Sebastião, antes de pegar no copo, do o lavar e de o encher, relanceia a sua pupilla verde, n'uma observação rapida mas profunda, pela pessoa que está deante de si.

Estuda-a n'esse relance de olhos e, silenciosamente, como um soberano que dispensa mercês, dispensa elle copos d'agua, servindo-se do seu gesto grave como se fosse um decreto.

Sim! a gente, tambem n'um relance, parece lêr isto nos seus olhinhos verdes: «Eu Sebastião, copeiro por graça de Deus, sou servido servir este copinho d'agua a este cavalheiro que o requer, com a circumstancia tacita de o julgar tolo, porque principia por tomar cincoenta grammas quando devia limitar-se a tomar apenas trinta. Mas eu, Sebastião, copeiro por graça de Deus, que estou sempre ao pé da agua, lavo d'ahi as minhas mãos,—silenciosamente.—Dada de bico callado aos tantos de tal, nas Caldas da Rainha e de copo na mão».

A gente lê este decreto, toma o seu copinho, e sáe a porta. Respira-se então melhor,—como quando se sáe da Ajuda. Até ir repetir a dose ninguem[{11}] pensa mais no Sebastião, porque é tambem esse um ruim sestro da natureza humana: depois de recebida a graça, ninguem pensa mais em quem lh'a concedeu.

E os que receberam a agua no copo procedem similhantemente aos que receberam a agua em pulverisação, isto é, desoppremidos, dessebastianados, espanejam-se ao longo da Alameda rindo, conversando, como se gosassem a melhor das saudes e não tivessem tomado remedio algum ha muitos annos.

A saude, que todos de manhã julgam perdida, reapparece á noite, florescente e agil, na valsa e mesmo no chá, entregando-se resolutamente aos compassos de Strauss e ás bolachas do Club.

Ora este Club das Caldas,—pois que fallei n'elle,—parece-se um pouco com as praças de guerra: é dos primeiros que o occupam. Isto seria inteiramente justo, por direito de conquista, se os primeiros que chegam se limitassem a occupal-o,—mas fazem mais alguma coisa: entrincheiram-se em grupos.

O grupo A arvóra bandeira, fortifica-se, e resiste.